terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Alguns privilégios (prévia de bodas de prata)

Existem momentos em nossas vidas em que duvidamos de tudo, dispondo ao descrédito quase irremediável até mesmo as vitorias mais significativas e neste momento, exatamente neste momento, as pequenas coisas tomam proporções incríveis e também exponenciais. Um exemplo claro é receber um não de quem amamos; um não circunstancial que outrora fora corriqueiro assume contexto de término de relacionamento, final de amizade, de amor, em fim, final de vida.
Este é um início dramático e sei bem disso, no entanto, não reflete em nada como me encontro emocionalmente agora e sim como estive diversas vezes e, evidentemente, saí deste estado ferino diversas vezes.
Pode soar irônico, mas a ideia de início depressivo veio imediatamente após o privilégio que tive de ser único expectador da bela melodia do canto de um canário do cerrado que pousara próximo a mim depois de dois sobrevoos.
Aquele pequeno canário liberto e majestoso fez-me sentir tão livre quanto ele, sem que um pensamento destrutivo habitasse minha cabeça e me perguntei como aquela criatura pequena e frágil conseguira tal feito.
Confesso ter repensado quase a vida inteira, confesso ter relembrado dores e docilidades vividas, recebidas e também por mim proporcionadas. Repensei também meu acidente e minha tetraplegia que no dia 14 de janeiro deste ano de 2014 completarão 25 anos, mas deixarei as bodas de prata para outra oportunidade e volto ao canário libertador.
Continuando, no meio das reflexões, percebi que a liberdade sentida veio do amadurecimento e experiências que somente ao tempo pertencem. Nós não controlamos o tempo e contrariando o que diz o poeta Renato Russo em sua música “Tempo Perdido”, não temos todo o tempo do mundo, todavia, agora em concordância, “temos nosso próprio tempo”, temos uma única vida e na verdade, ou melhor, em minha verdade, temos sim é o poder de eternizar todos os momentos da vida para fazê-la completa, repleta de adereços, imagens e histórias a serem compartilhadas, pois guardar histórias é matar e morrer aos poucos e o esquecimento é a mais sofrível das mortes.
A apresentação solo do nobre canário durou poucos segundos e é exatamente de segundos que precisamos para escolhermos sermos felizes ao nosso modo ou tristes, também ao nosso modo e, em hipótese alguma, podemos culpar alguém por tristezas ou eleger um outro alguém como o detentor de nossas alegrias perenes.
Falando assim parece que dou à vida um ar de egoísmo, de que devemos viver sem dar a importância devida àqueles que nos cercam. 
Enganam-se! Lembram-se da palavra compartilhar? Pois é... A vida, a felicidade, a vontade de mudanças devem ser compartilhadas como um tesouro e não entregues como quem a um ladrão entrega sem resistir seus bens mais preciosos. 
Mas calma! E o amor? Apresento-lhes a única exceção. Somos aqueles que amam, e sim, também somos amados e quando compreendermos minimamente o quão a vida e o amor são unos nós...
Não posso continuar por não ter tamanha sabedoria para compreender a unidade entre vida e amor. Sei apenas que sou um privilegiado por viver e amar intensamente e mais nada.
Caso alguém venha a se perguntar como um simples canário conduziu-me a tais reflexões responderei de imediato com outra pergunta:
Quantas vezes você parou ou teve o privilégio de ouvir, de perto, um pássaro e sua melodia a encantar olhos, ouvidos e alma?

Até a próxima,

Angelo Márcio.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Fim de ano

Sou daqueles que percebem mudanças típicas de final de ano com uma certa melancolia, rispidez e uma questão:
_Por que esperar tanto?
Estamos permitindo que o depois vigore sobre o agora e isso, meus caros, é fatal.
A cada dia que passa, por motivos diversos, a capacidade nata de mirar e viver alternâncias marcantes vem sendo substituída por uma vontade vazia de sermos apenas expectadores e assim observar, apenas observar para, a duras penas, no depois, chorarmos perdas irreparáveis sem possibilidade de retorno.
_Como eu queria que o tempo voltasse!
_Sinto muito, mas sua chance se perdeu em sua inércia, dormência... torpor.
É claro que essa não é uma verdade completa e mentira também não é, pois não há muito ou pouco tempo para dos amores, amizades, dores e esperança trazer para si intensidade de vida.
Assim, humildemente, peço a mim e a vocês:
_Vamos viver com intensidade e verdade todos e quaisquer momentos desta história que é nossas vidas!
Aqui releio o texto e começo a sorrir para as surpresas que hão de vir e do quanto vivo tudo o que critiquei, do quanto já vivi e o que vivi, mas quero mais, muito mais e serei feliz, ou melhor, seremos FELIZES.
Tenham um belo final de ano e até a próxima!

Angelo Márcio

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O tempo que não temos

Nos últimos dias a frase “Não tenho tempo” e outras semelhantes têm se tornado uma constante. É como se de uma hora para a outra a vida se pautasse por medidas temporais, as amizades precisassem ser agendadas e os amores tratados com prazos limitados.

Imagino agora um amigo que precisa muito conversar marcando para sete dias depois o papo e questiono: É uma amizade? Aprendi que amigos verdadeiros não fazem este tipo de coisa. Para estes para-se tudo e que o mundo, tempo ou questões pessoais sejam deixadas de lado. Mas não! A cultura do total do desapego tem tempo de agir e pessoas solitárias de outras e de si mesmas agonizam em sua solidão, arrogância, medos e ansiedades.

Ficar só tornou-se “cult”. Que coisa medonha e mortal.

A cada dia que passa, e os dias são medidas temporais, observo amores contratuais e a amizade não deixa de ser um amor.

Digo amores contratuais porque tudo tem que ter data e horário para acontecer. Imagino agora o sofrimento do pobre romântico, desesperado por não saber se é certo ou não romper com o contrato ou, em nome do amor, arriscar surpreender sua amado em um momento diferente do habitual. É desumano!

É isto! Hábito.

O amor e a amizade estão deixando de serem naturais, simples e prazerosos para serem conduzidos a um algo habitual e rotineiro  que se não funcionar, muda-se ou descarta-se.

E quando esta realidade chegar a um ponto sem volta, haverá tempo para mudar esta cultura?

Enquanto tenho tempo para escrever, quero fazer um pedido: Sacrifiquem o tempo e não aqueles que amam vocês!

Até a próxima!
Angelo Márcio

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Um dia de sonhos

Desde ontem venho celebrando um aniversário que iniciou no dia em que nasci. E nasci várias vezes. Assim como também me reinventei em incontáveis momentos sem perder a essência de quem sou.
Estranhamente, esta noite sonhei que estava andando e era em um contexto já passado. Digo estranhamente porque tem meses que não sonho estar andando ou talvez, como afirmam os especialistas, apenas não lembre sempre, pois sonhamos todas as noites.
Percebo agora que o texto está me conduzindo como barco à vela em ventos calmos para mares diferentes, mares não navegados, próximos ou inalcançáveis fisicamente. Os mares dos sonhos. Sonhos realizados ou guardados no íntimo como quem esconde falhas para aparentar ser melhor.
Às vezes julgo, em minha lucidez incoerente­­­­­­ que sonhar é fugir da realidade, mas hoje não. Hoje sentencio que sonhar é iluminar a realidade com os holofotes das verdades contidas pelo receio de parecer infantil.
Quanta idiotice ter medo de ser infantil sendo a infância a melhor fase da vida.
Em um outro às vezes, acho que sonho mais acordado que adormecido. E é estranho porque pareço estar fugindo para um universo onde tudo acontece dentro de uma linha sem falhas, não tortuosa, enquanto do outro lado, o lado do real e palpável, a dor é mais aguda e o sangue mais vermelho, assim como o gozo é mais intenso.
Sonho sempre que estou andando por achar que tudo é mais fácil para os caminhantes e dentro desse todo vêm saudades do simples e claro que o complexo não ficaria de fora.
Tenho saudade de sentir a textura da areia sob os pés, saudade de sentir nas mãos o calor que emana... Chega! Mesmo sendo feliz, tentar elencar as saudades faz-me chorar em dia de festa um choro de perda e não de vitória.
Confesso confuso entre o real e o sonho estar assustado neste dia em que completo 40 anos. Assustado pela responsabilidade de ter vivido tanto, assustado por ter esquecido tanto e assustado por não saber o que o futuro me reserva.
Assim agarro com minhas mãos de dedos atrofiados, com um sorriso infantil, a esperança de que muito de bom há de vir e de ruim...
Ah! Quer saber? Que venham novos dias, aventuras, pessoas, sol, chuva, VIDA e uma pitada de qualquer coisa porque quero é viver, sonhar e realizar.

Até a próxima,


Angelo Márcio.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Sem palvras

Após seis longos meses sem publicar novos textos, celebro o dia de hoje como um retorno calmo e repleto de significados, pois em seis meses uma vida inteira pode ser contada e, nesses poucos dias, uma vida de diferentes atos, sensações, vitórias e derrotas fora vivida.
 
Em cada crônica deficiente, dentro de uma sensibilidade particular, transito em reais acontecimentos sob uma ótica de quem vive as dificuldades inerentes a tetraplegia e, evidentemente,  também as descobertas da nova vida disposta na alma, corpo e intelecto.
 
Tenho amado e assumido o quanto amo muito mais que antes; tenho superado barreiras pessoais e interpessoais; tenho realizado sonhos que julgava serem possíveis somente se andasse. Na verdade, tenho vivido intensamente meus dias que, às vezes, vejo-me diante do inusitado e difícil... Um sorriso surge e vou em busca de novos desafios.
 
Nos últimos dias, sinceramente, relutei em retornar com o Uma Crônica Deficiente e confesso que quase fechei o blog. Por que? Até hoje me questiono e não obtive respostas.
 
Dias intensos e também tensos.
 
Em dias assim a alternância de sentimentos e tudo mais que completa a vida toma proporções descontroladas. Por mais que tenha os pés no chão há a vivência do não saber como agir e volto a ser criança. Mas uma criança adulterada pelas certezas incoerentes da fase adulta.
 
Exemplo:
 
Crônica de um parágrafo
 
Noite de festa com parque, roda gigante com desenho de estrela formado por lâmpadas, sons misturados e característicos de festas interioranas levaram minhas lembranças para a infância e mantém meu corpo inerte na atualidade. Numa dualidade de percepções que fazem das lágrimas companheira constante no gozo, na dor e no torpor de um instante de sonho.
 
É bom estar  de volta!
 
Até a próxima,
Angelo Márcio.
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