terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Alguns privilégios (prévia de bodas de prata)
terça-feira, 22 de março de 2011
Uma noite de carnaval
É extremamente fácil comparar e fazer com que a palavra carnaval se torne adjetivo e substitua palavras como alegria e festa.
E foi em um dia de carnaval, mais exatamente uma noite de carnaval, noite quente, de pouca brisa e absurdamente convidativa para sair da quietude e se deixar conduzir por pessoas queridas pelas avenidas de uma cidade interiorana, onde os sorrisos eram como apelos para que, naquela noite, o julgamento muitas vezes imposto por mim em virtude da deficiência fosse então passível de absolvição. E o juiz da consciência bateu o martelo e disse: Liberte-se!
A avenida ornada por grandes palmeiras que há muito tempo atrás eu conseguia tocar suas folhas com a mão, naquela noite eram moldura primária de um quadro composto por pessoas que se querem bem.
Primeiramente, era visivelmente necessário que parássemos em uma sorveteria no intuito de amenizar o calor e, claro, conviver, conversar, sorrir e apreciar como nunca a companhia uns dos outros enquanto nos deliciávamos com picolés e sorvetes. Ao final desta festa gelada observou-se um silêncio. Este era o momento em que eu realmente decidiria se iria ou não ao baile de carnaval, pois mesmo feliz ainda havia dúvidas, no entanto, lembrei-me que a mãe das preciosidades que haviam me tirado do marasmo, um dia antes afirmara que suas filhas somente iriam ao baile em minha companhia. Sendo assim olhei para elas e perguntei como quem afirma se queriam ir e é fácil concluir que a resposta fora afirmativa. Quatro belos sorrisos que diziam sim.
Isso não quer dizer que tenha ido por obrigação. Não! Muito pelo contrário! Eu não perderia a oportunidade de estar com quem quero bem em dia de alegria. Se perdesse seria, com o perdão da expressão, um idiota.
Fui conduzido então até o local do baile. De longe era possível ouvir a música e também ver as luzes e o colorido típico de festas carnavalescas; para adentrar o local, passamos por um caminho que dividia dois lagos sendo o da direita mais antigo e o da esquerda muito próximo de onde eu sofrera o acidente, onde iniciei uma nova vida.
Foi impossível passar por ali e não lembrar o dia em que deixei de sentir e movimentar boa parte de meu corpo.
Havia jovens, famílias inteiras e a sensação de liberdade fazia com que a imobilidade fosse momentaneamente esquecida e a insensibilidade substituída por uma vontade sensível de ser feliz, de estar feliz e de proporcionar felicidade também àquelas jovens, preciosas jovens, que amavelmente me faziam companhia. Naquele momento elas nem imaginavam o quão grande e importante havia se tornado uma singela ida a um baile de carnaval.
Em dado momento uma delas veio até mim, com olhos brilhantes, para perguntar se eu me importaria em ficar um tempo sem companhia para que pudessem andar um pouco, ver a banda de perto, encontrar amigos, em síntese, fazerem o que a juventude deve fazer – divertir-se. Minha resposta foi tranquila e objetiva ao dizer que poderiam ir, ou melhor, que deveriam ir.
Sem que eu pedisse, sempre voltavam para saber como eu estava, ficavam um pouco e retornavam a viver sua juventude em festa.
Enquanto estava sozinho, em tese, fora possível ali refletir sobre a importância de querer e poder viver ao lado daqueles que amamos.
Um detalhe: Chegamos em casa às três horas da manhã.
Até a próxima!
Angelo Márcio.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Olhar além – Ir além
No ultimo dia 14 de janeiro foi o aniversário de 1 ano do Uma Crônica Deficiente e também a soma por vezes indigesta, porém assumida com vontade incomum de 22 anos de tetraplegia. A expressão “incomum” hoje adquire, não a diferenciação de nomenclaturas ou estado físico, mas uma reflexão do quanto o diferente assusta, faz com que atitudes inaceitáveis sejam postas em prática e agora saio do meu mundo egoísta para ter proximidade com outras realidades.
Dois jovens que sorriem na vida e contam histórias que provocam risos, por um momento, relataram dores e feridas abertas em suas infâncias que até hoje marcam suas curtas trajetórias até o momento – ainda vão viver muitas histórias.
Eles não aprofundaram e nem eu quis provocar esta atitude, pois a liberdade é doce e aquele que impõe perde-se por não compreender a violência de seus atos.
E foi assim que em poucas palavras um jovem que nascera com dificuldades para respirar, uma má formação no céu da boca e lábio superior que obrigaram a tratamento e cirurgias questionou-me quanto a preconceito e, logo em seguida, a jovem de tranquilidade invejável e disposição constante de estender a mão fez coro na questão preconceito.
Peço perdão aqui por não saber denominar as deficiências destes jovens, mas continuarei com cuidado.
Os dois foram diretos ao afirmarem que sofreram muito na época escolar, principalmente nos primeiros anos. O que era para ser uma época de descobertas, de inserção social e de aumento do conhecimento os levou a anos de apelidos indesejáveis e de violência em suas vidas. Não me refiro à violência física, mas àquela que traz tanta dor quanto o que nos faz sangrar.
Assim imagino o isolamento causado e contemplo suas vitórias em poucas palavras. Isolamento este que em seus resquícios ainda aflora no relacionamento com a sociedade.
Em dado momento surgiu a expressão: “Até mesmo a professora me sacaneava e induzia os alunos”.
Neste caso, em específico, foi movida uma ação de pedido de indenização que fez com que a professora pedisse desculpas e, também, para que o processo não continuasse e além de pagar indenização ela, a “mestra”, não perdesse seu emprego. Bem, a bondade do coração da mãe descontinuou o processo e não me atrevo a julgar sua atitude.
Em outro detalhe fora revelado que era necessário, literalmente, lutar contra as perseguições, não para se impor, mas para defender-se daqueles que diante do que não reconhecem como comum recorrem ao ataque.
Sim! Durante e depois da conversa, sorrisos que só tem quem vence fizeram-se música e ilustração perfeitas.
Agora questiono:
_Até quando, deficientes ou não, necessitarão passar tal violência vinda do preconceito e também provar dia por dia suas capacidades desacreditadas por ignorância?
_Até quando?
Até a próxima!
Angelo Márcio.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Paz – Viajar é preciso
Os tetraplégicos sabem bem que sem auxílio de terceiros a vida estaciona a possibilitar reflexões sofríveis sem remediação imediata e uma ansiedade comum de visitas e companhias que possam distanciar, sem perceber, o caos dos pensamentos.
Para não ficar assim mais uma vez, Nos últimos trinta dias, tive a oportunidade de fazer quatro viagens com pessoas queridas e também ter companhia de pessoas que muito quero bem e que também me querem bem.
Logo após a visita a minha avó querida, em dezembro, fui a Goiânia buscar duas preciosidades, duas primas que sempre me fazem companhia quando vou a Jussara-GO.
Sua estadia em minha casa trouxe dias de alegria, conversa, brincadeiras, sorrisos, em síntese, VIDA.
Foi tão importante que sequer consigo descrever em texto.
Em seguida fomos, as preciosidades e minha família, para um casamento em Barreiras, na Bahia, outro local muito quente e repleto de pessoas acolhedoras.
Por lá fiquei cinco dias. Dias de imensa felicidade por estar com os meus amados familiares.
Retornamos da Bahia e fomos direto para Jussara e seu calor. Já em Jussara a companhia uma das preciosidades foi fazer companhia a sua mãe e a outra ficou comigo e minha querida mãe.
Mais uma vez não consigo descrever em texto, mas posso afirmar que a muito tempo não tinha dias tão felizes.
Ah! Minha avozinha está quase curada e de muito teimosa já anda com o auxílio de uma bengala.
Posso afirmar que durante as horas de estrada, minha deficiência, minha tetraplegia, mostrava-se incomum, pois apesar da dificuldade de ser colocado no banco dianteiro do carro e, além do cinto de segurança do carro, usar também outro para evitar movimentos laterais eu me sentia absurdamente LIVRE.
Muito pode ser feito quando queremos e sabemos provocar os limites para obter o que podemos.
Este é um texto curto. Sei disso.
Pense agora naqueles dias de alegria de sua vida, sorria, celebre, grite se assim quiser, ouça música alta, sinta-se amado e aí saberá como realmente estou.
Até a próxima!
Angelo Márcio.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Do outro lado…
Em dias de festa de final de ano, costuma-se dizer que a reunião familiar é ato corriqueiro e, sem sombra de dúvida, de felicidade também. E para seguir esta tradição, 400 KM foram percorridos e sempre com sorriso de quem vai para celebrações de felicidade constante.
Ao chegar à frente da casa, o portão verde em formato de grade era inconfundível; assim como também eram inconfundíveis a arvore da frente, a pequena rampa para adentrar o lote, o canteiro à esquerda, a visão frontal da casa de cor branca e verde com pequena área ladeada de plantas e emendadas por batentes baixos que mais parecem bancos, ou melhor, são bancos com rosas. Estas áreas também são chamadas de alpendre. Em uma das laterais que dão acesso aos fundos da casa ainda havia plantas em vasos e o mesmo chão de cor verde.
Sim, tudo inconfundivelmente igual. Era assim que era pra ser, mas algo diferente habitou os olhos e fez o coração acelerar.
Em uma rede, no final do corredor, encontrava-se uma mulher no alto de seus 87 anos de vida intensa e batalhas muito mais duras; uma mulher que criara e educara 16 filhos e que já carregava cicatrizes no coração por ter sepultado 8 destes filhos; uma mulher de decisões coerentes a seu coração e contraditórias ao que rege o mundo que insiste em nos moldar. Esta mulher que tanta força irradia fora vitima de um dos piores acidentes que ocorrem com idosos, um acidente que faz com que a bacia seja quebrada e ela, caros amigos e leitores, ela é minha querida avó.
Um dia descrevi seus olhos marejados e hoje posso imaginar um pouco de sua dor ao me olhar. Confirmar sem receio o pensamento que temos de que nada ocorrerá conosco.
Quanto engano!
Não é fácil nos colocarmos no lugar daqueles que choram. Ela, minha avó, chorou por mim, por ter ficado tetraplégico em um acidente e hoje eu – o neto – amargamente, sinto a dor contida em seu olhar abatido e busco forças para animá-la um pouco que seja... e desse pouco surgem sorrisos.
Não é fácil estar do outro lado!
Até a próxima!
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
O orfanato
sábado, 18 de dezembro de 2010
O lado obscuro (retorno)
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Dias sem palavras
Inicío pedindo desculpas sinceras aos leitores e amigos por ficar tanto tempo ausente.
Quero que saibam que ainda não é o retorno, que somente poderá ocorrer daqui uns dias, pois estou tendo alguns probleminhas que logo logo serão resolvidos e descritos aqui. Bem como as alegrias também.
Sabe, quando assumi o desafio de escrever aqui no Crônica Deficiente, não imaginava o quanto seria grande e nem as amizades que faria... fora a responsabilidade para com os leitores.
Assim agradeço e peço a calorosa compreensão de vocês.
Até a próxima! (MESMO)
Angelo Márcio.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Um anjo para um dia
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Viver! Amar! Por que não tentar?
Primeiramente quero pedir desculpas aos queridos e amigos do Uma Crônica Deficiente pela ausência, mas eu não esperava que minha vida fosse tão agitada como nos últimos quinze dias.
Antes de viajar e começar o diário de bordo deixei uma chácara reservada por final de semana inteiro para cumprir mais uma das etapas que eu havia proposto para minha vida, ou seja, dedicar-me mais aos estudos, à família e aos amigos. A primeira proposta já fora cumprida, porém não em sua plenitude, e as outras duas tiveram seu início oficial no final de semana passado, pois, na chácara, consegui reunir minha família e parte de meus grandes amigos.
A chegada à chácara deu-se à noite. Estava comigo parte da família e alguns amigos que, dentre eles, destaco uma doce moça que afirmo ser a mais bela, querida e agradável companhia.
Enquanto meus irmãos e minha mãe jogavam baralho e cuidavam da parte de comidas eu ficava com os amigos a beira da piscina conversando e os vendo entrar naquela água supergelada. Momentos de risadas e pura vida descontraída. Perto da piscina conversamos sobre música, vida, estrelas e também tomamos um pouco de vinho até as três horas da manhã para depois nos recolhermos para dormir, ou melhor, tentar dormir, pois após deitar a doce companhia, um amigo e eu ficamos a conversar até o nascer do sol para que este pudesse ser fotografado e foi.
Amanheceu e fiquei o tempo quase todo a observar a família e os amigos se divertindo e por vezes lembrando que há três anos tentei fazer esta reunião sem sucesso. Lembro-me que na época do insucesso chorei muito, mas tinha consciência que um dia conseguiria.
Vi e convivi com aqueles que amo e afirmo que qualquer esforço para estar em convívio com tanto amor sempre valerá a pena, sempre será altamente frutífero.
Em dado momento, após o almoço, deitei-me em um colchão de ar sob a sombra das árvores para poder contemplar aquela efusão de felicidade deles e minha também.
Por alguns instantes tive a companhia da doce moça ao meu lado e falamos de quase tudo em poucos minutos. Também falamos de uma alegria que dividimos que era o fato de sua mãe estar deitada sob a sombra também a desfrutar da tranquilidade e descansar. Dessa vez o sorriso de felicidade foi duplo e compartilhamos de uma aparente tristeza: O dia estava chegando ao fim e precisaríamos ir para nossas casas, voltar para a realidade que compromete nossas horas e por vezes nos distancia até de quem mora sob o mesmo teto.
Em breve faremos outra reunião, pois, a passos lentos o que é natural e belo mastra-se. Correr? Quero apenas desfrutar com mansidão o pouco que posso ao lado dos que Amo.
Até a próxima!
Angelo Marcio.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Diário de bordo 6º dia
Há uma música bem antiga que diz assim em um de seus versos:
“Eu queria ter na vida, simplesmente, um lugar de mato verde pra plantar e pra colher. Ter uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela só pra ver o sol nascer.”
Peço desculpas por não creditar o autor ou cantor, mas este trecho, em específico, reflete um de meus desejos. Posso não ter plantado nem colhido, no entanto, o que estava ao meu alcance agarrei sem pudor. Agarrei dias de vida simples; agarrei a estadia na casa de minha tia e sua varanda, bem como terei novos quadros do nascer do sol na memória.
Na vida simples passei horas deitado em uma rede sempre com o pensamento longe. Não fiz isso para fugir da realidade, fiz muito mais para perceber que somos donos de nossas realidades e as surpresas do caminho, de alguma forma, positiva ou negativa – cabe a nós definirmos – vai a cada rompante ou de súbito moldando nosso viver e a arte final, a obra prima, somente pode ser assinada por mim, ou melhor, por cada um de nós.
É muito fácil creditar a outros as nossas culpas e, infelizmente, muitos ainda alimentam também a descrença em si e não assumem a autoria de suas belas obras. Digo isso por conviver com pessoas que agem assim.
Dando continuidade ao pós-rede, fora os dias de cama, teve algo que perdi: Um jantar na casa de um primo na cidade de Montes Claros para, além de me deliciar com ótima comida goiana, ter a oportunidade de passar e fotografar o Rio Claro, pois foi ao passar sobre a ponte dele e não poder fotografá-lo que surgiu o blog Uma Crônica Deficiente. Fica para uma outra vez.
Com minhas primas que tanto prezo e me ajudam, vimos um filme e, ainda à noite, após minha mãe chegar de Montes Claros, voltamos para Jussara com uma diferença: Voltamos pelo asfalto. Bem diferente da estrada de chão da ida e, ao mesmo tempo, sem histórias para contar, ou melhor, tem uma sim.
Assim que chegamos a Jussara, deixamos uma tia em sua casa e nos dirigimos para a frente da casa de nosso amigo que cedera o sinal de internet sem fio. Certamente ele já dormia e lá estávamos nós: meu primo, minha mãe e eu.
Era mais de meia-noite. Ao ligar o notebook meu primo apertou a buzina e pensei que algum vizinho viria ver quem ou o que era, se fosse o amigo tudo bem, mas se fosse outra pessoa teríamos que dar explicações e enquanto o arquivo era transferido também passou um carro de polícia e um grupo de cinco jovens que não sei o que faziam àquela hora da noite na rua.
Senti-me como um adolescente fazendo algo de errado. A diferença é que estava dentro do carro aquela que deveria me dar uma bronca e agora sorrio com esta história.
Aqui quero deixar bem claro que o dono do sinal de internet PERMITIU que eu usasse. De outro modo seria CRIME.
Até a próxima!
Angelo Márcio.
Diário de bordo 3º,4º e 5º dias
Como as coisas podem mudar tanto em um prazo de 12 horas?!
Vamos às minhas explicações, ao menos.
Certamente poderia fazer uso do momento em que fiquei tetraplégico, no entanto, fato mais simples e sem controle aparente evitou que o Diário de Bordo fosse publicado por três dias seguidos. Fatos que muito envolvem minha condição física.
Como afirmara no post anterior, realmente estou na fazenda, mas prefiro narrar e assim será.
Na clara noite de terça-feira, com lua cheia e bela para amantes e poetas, fomos a uma vila próxima a Jussara para de lá nos direcionarmos para Santa Fé de Goiás. Ao sairmos da vila optamos por um caminho alternativo de estrada de chão e muita poeira.
Quando percebi, o caminho se tornou conhecido, pois eu havia passado por ele quando tinha apenas 12 anos de idade e havia passado a pé junto com outro, hoje falecido. A cabeça, a mente foi se inundando de recordações felizes, pois meu primo e eu tínhamos fugido para participarmos de uma festa em uma fazenda e, no caminho, passamos por um córrego de nome bem sugestivo: “Córrego da Onça”. Lembro-me que sentimos muito medo, pois a possibilidade de aparecer uma onça era bem real e quando passamos por ali era noite também.
Hoje, de dentro do carro, ia lembrando cada curva, as matas, os lagos, as porteiras e tudo mais. Era como se revivesse tempos passados e, ao mesmo tempo, em um misto de alegria e consternação, sorria e tinha consciência das dificuldades de pisar e sentir aquele chão novamente. Ainda assim creio em um futuro próspero, pois luto, acredito em Deus e sempre escreverei aqui o que realmente penso, sinto e acredito.
Após este momento “flash back” chegamos à fazenda e a primeira coisa que fiz foi pedir para ser posto no banheiro. Isso foi feito por minha mãe e meu primo; um segurava por baixo dos braços, nas axilas, enquanto o outro segurava pelas pernas, por trás dos joelhos; confesso que é bem incômodo, mas vale a pena.
Antes de sair do banheiro avisei minha mãe que havia algo estranho comigo e mesmo depois de sair o mal-estar continuava. Minha mãe queria saber exatamente onde estava ruim, mas, para um tetraplégico cuja sensibilidade é restrita dos ombros para cima, ficou muito difícil responder.
No outro dia, pela manhã, descobrimos o que me afetava e era algo que alguns classificariam como dor-de-barriga, outros desinteria, mas eu prefiro colocar como uma leve infecção intestinal que me deixou dois dias de cama e minha mãe, claro, sem perder o bom humor, disse que se ganhasse dinheiro pela quantidade de roupas minhas que ela lavou, certamente ficaria rica. Não posso esquecer-me de dizer que fui tratado à base de chás naturais feitos por minha tia.
Para mim é estranho descrever isto, mas é algo que aconteceu e que faz parte da aventura (na próxima trarei fraldas geriátricas... risadas).
Agora peço calma, pois não foi tão ruim assim. Pude conviver mais com três primas que sempre estão comigo e são responsáveis por momentos de risada e por muitas das fotos tiradas. Vi o maravilhoso nascer da lua e ouvi o som de alguns bichos silvestres e hoje, enquanto escrevo, posso respirar um ar puro, ver o sol dar cor à sequidão do cerrado; a minha direita há a estrada de acesso e neste instante ouço um belo dueto de pássaros-pretos e rolinhas regidos por um grilo.
Estou realmente FELIZ e minha mãezinha está fotografando.
Quanto ao sinal de internet?
Nada... Que bom!
Até a próxima!
Angelo Márcio.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Diário de bordo 2º dia
Ainda estou em Jussara, cidade do sudoeste goiano, perto de Mato Grosso, há 415 km de Brasília e, aparentemente, bem próxima do Sol. Digo isso por ser uma cidade muito quente com temperaturas quase sempre acima dos 32 graus.
É a mesma cidade do acidente e que também trás contentamento.
Nossa primeira aventura foi, em pleno domingo, tentar encontrar nesta pequena cidade um sinal de internet para que o Diário de Bordo pudesse ser publicado.
Primeiramente, com dois primos a ajudar-me, fomos de carro a um posto de gasolina onde nos deliciamos com pasteis e sucos. Sempre sem esquecer que buscávamos o tal sinal de internet. Os pasteis estavam ótimos, no entanto, teríamos que andar um pouco mais.
Saímos da cidade e fomos fotografar uma parte do riacho onde renasci. Atitude imprudente, pois paramos o carro à beira da estrada, em cima de uma ponte e que renderam boas fotos. Em nenhum momento desci do carro e pretendo descrever e demonstrar com fotos como se faz para me colocar dentro de um automóvel.
Continuamos nossa busca percorrendo as ruas da cidade até que meu primo ligou para um amigo e ele permitiu que utilizássemos o sinal da casa dele. Fomos rápido, pois a bateria estava quase no fim. Fim suficiente para conectar e publicar o Diário do primeiro dia.O que acabei de descrever pode parecer algo bobo para aqueles que somente se importam com grandes atos, fatos ou história. A grandiosidade desta história está nos sorrisos, no bate-papo, na convivência e, principalmente, na disponibilidade dos meus primos em ajudar-me em algo realmente corriqueiro: Encontrar um local com sinal de internet.
À noite andamos pela cidade e fomos a missa para depois ver o Brasil ser 9 vezes campeão da Liga mundial de Vôlei.
Os próximos dois ou três dias passarei em uma fazenda aos arredores da cidade de Santa Fé de Goiás e lá, meus amigos, devo encontrar de trator a bicicletas; de vacas a tucanos; de emas a cavalos; mas sinal de internet?
Veremos.
Até a próxima!
Angelo Márcio.
domingo, 25 de julho de 2010
Diário de bordo 1º dia
E não é que após a formatura e uma semana um tanto quanto entediante recebi um prêmio que posso afirmar ter sido inesperado.
Era uma sexta-feira bem fria. Minha concentração se voltava toda para os trabalhos com os jovens da igreja e também para uma reunião de família em meu aniversário no próximo mês. Reunião esta que tentei há três anos atrás e não consegui. Algo muito entristecedor.
Mas vamos ao prêmio.
Meu irmão Haia chegado de viajem do Tocantins e, possivelmente, iria para casa de meus avós no Goiás. Com isso entra em cena outro irmão e juntos decidem viajar no sábado pela manhã levando consigo minha mãe e eu, ou seja, tínhamos menos de dez horas para ajustar tudo, desde cadeira de rodas, materiais de cateterismo até as roupas, claro, e para deixar para trás o dia-a-dia da cidade grande.
Agora posso afirmar que estou na casa de meus queridos avós, com minha mãezinha, irmãos, primos, tios, gatos, periquitos e muita felicidade.
| Fruta da Bahia de nome Mangustão. |
E, a partir de hoje, partilharei com vocês amigos e leitores, por meio de fotos e textos, o desfrutar deste prêmio amável.
Aqui se dá início ao meu diário de bordo.
Até a próxima!
Angelo Márcio.
domingo, 11 de julho de 2010
Um discurso
A aprovação no curso de TI já passara, faltava a formatura e com alegria aceitei o convite para ser o orador. Tive receio diante de um auditório lotado,mas aqui publico o texto de uma vitória com a qual espero abrir portas para outros deficientes que queiram lutar.
“18 meses, LV, PHP, BD, SI. Envoltos em tempo e siglas, às vezes não percebemos alguns detalhes que vão além.
Por exemplo, não percebemos que para a maioria dos que hoje finaliza um ciclo houve dificuldades impostas pelo tempo e, porque não, também pela falta de tempo.
Sair de um trabalho de uma noite inteira, chegar no horário, sorrir e assumir que está desenvolvendo novas habilidades diante de tal barreira é puro estímulo.
Isso é vitória diária que não percebemos e por falar em percepções...
Não percebemos os olhares daqueles que tiveram o receio da reprovação.
Aqui se abre espaço para concretizar que o maior receio era o da reprovação pessoal. “Nadar e morrer na praia”? Não! Isso é o inconcebível.
Não percebemos que também havia medo.
Não percebemos que havia cumplicidade.
Não percebemos muito, mas hoje, celebramos juntos.
O que significa que afirmar que não percebemos agora seja errôneo.
Talvez, apenas tenhamos demorado em notar que o tempo passou e que cada um pôde vivenciar dias diferentes, problemas diferentes em soluções iguais que não fogem da palavra PERSEVERANÇA.
E somente os vitoriosos perseveram, lutam e também são teimosos ao extremo.
Cada um, quando decidiu estudar, aperfeiçoar ou simplesmente ter conhecimentos a mais, também projetou algo para o depois- o pós-curso.
Certamente pode-se dizer que muitos planos mudaram no decorrer dos dias e no avanço do conhecimento e não percebemos que nos tornamos mais maduros, flexíveis e conscientes que, independentemente de idades, nos tornamos mais humanos em um universo de máquinas.
“Ninguém nasce sabendo”!
Muitos aqui presentes já devem ter ouvido isso de seus pais ou dito isto, exatamente, por serem pais.
Hoje, noite de celebração, pode-se afirmar e modificar esta máxima e dizer para os que desistiram ou foram obrigados a desistir e para vocês, vitoriosos do curso de Técnico em Informática, que, já que ninguém nasce sabendo e nestes três semestres muito aprendemos, peço permissão a Drummond que afirmou que “o tempo não passa” e que cada dia é um “nascer toda hora” para dizer:
_O conhecimento é um tesouro, sendo assim, estou diante de milionários.
No entanto, para finalizar, repito para todos o que foi dito por um marido em apoio a sua esposa que hoje está aqui conosco: Valorize seu curso!
Parabéns a todos e continuem. Não parem por aqui!”
Até a próxima!
Angelo Márcio.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Dia de vitória
Manhã fria após noite mal dormida, porém com bons sonhos. Na televisão o jornal anunciava as primeiras notícias do dia e também trazia as primeiras imagens da neblina fria como cartão de visitas do Planalto Central.
Minha mãe já cuidava de mim e preparava o café da manhã. Tudo ao mesmo tempo, pois seu filho tinha de estar bem vestido para o dia de apresentação do Projeto Final do Curso de Técnico em Informática. Algo importante para mim e para ela.
Assim que estava devidamente arrumado, dois amigos vieram me buscar e começamos nossa caminhada de vinte minutos até a escola técnica. No caminho íamos lembrando que estávamos prestes a terminar ou cumprir uma meta proposta que havia começado há dezoito meses. O ritual da caminhada se repetia, porém com ânimo diferente. Íamos enfrentar a banca examinadora.
Ao chegarmos à escola encontramos outros que partilhavam da mesma ansiedade e pudemos sorrir juntos, tremendo de frio e, porque não, de certo temor também, que para piorar, teve o auxílio de nosso professor orientador a nos assustar perguntando se estávamos preparados para a guerra com muito bom humor.
Eu digo que realmente estava nervoso, pois mesmo concluindo as matérias, havia perdido muita aula importante.
Levei um resumo do que deveria falar na apresentação, mas não conseguia ler e para aumentar a tensão o professor pediu para que apresentássemos primeiro e fomos para o auditório que só tem escadas e os mesmos amigos tiveram que me carregar. Aí o medo aumentou. Tenho trauma de escadas.
Apresentamos o projeto com muitos questionamentos da banca e logo depois eles saíram para deliberar. Mais nervosismo e, para não esquecer, tinha a escada para retornar.
O frio na barriga aumentava quando o professor retornou com a ótima notícia de que nosso projeto havia sido aprovado, que precisaríamos ajustar algumas coisas na documentação, mas que já podíamos nos preparar para a formatura. Fomos aprovados!
Agora uma breve reflexão:
Eu quis escrever este texto assim, direto, explicativo e sem reflexões exatamente para descrever a simplicidade e exuberância desta manhã vitoriosa.
Para muitos um curso técnico é somente mais um curso, no entanto, para mim que tenho consciência das dificuldades enfrentadas junto com este caro amigo que me conduzia de segunda a sexta, este curso fora de importância ímpar pelo aprendizado e amizades feitas, pela descoberta de professores incentivadores e, principalmente pela vitória pessoal.
Quanto às escadas?
Perdoem-me os mais críticos, mas hoje quero esquecê-las.
Não sou incapaz, tenho apenas limitações.
Até a próxima!
Angelo Márcio.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Dia de visita
Antes e depois do acidente que me levou a uma vida de limitações nada agradáveis e também de vitórias antes inimagináveis, sempre apreciei celebrar a vida com aqueles que amo. E hoje não foi diferente! Foi mais uma feliz celebração.
Aqui preciso dizer que nós nos inundamos de afazeres que em nosso cotidiano servem, unicamente, como desculpas para aumentar distâncias que deveríamos, todos os dias, tentar encurtar.
Refiro-me à distância entre pessoas, entre amigos, entre familiares, entre quem bem queremos.
É inconcebível querer estar distante de quem se quer bem, de quem se ama.
Eu, muitas vezes, erroneamente, somo a enxurrada de afazeres à condição de tetraplégico para conjugar e trazer à ação o verbo distanciar e não é isso o que realmente quero, pois apesar de necessitar de alguém para me conduzir com a cadeira, gosto de visitar amigos –pessoas amadas – e tenho consciência que há aqueles com limitações muito maiores que as minhas. Limitações físicas ou não.
Mas se alguém pode mexer um braço, estaria ela impedida de um gesto de carinho?
Digo-lhes que em minha estadia hospitalar conheci pessoas em pior estado do que o meu e que, mesmo assim, sorriam, celebravam a vida de forma contagiante e foram mestres.
Mas hoje não!
Hoje ocorreu o inverso!
Ao ser visitado por alguém a quem quero muito bem a distancia dissipou-se e deu lugar a sorrisos, seriedade e felicidade por companhia tão agradável e amável. O vazio que eu criara com a enfermidade – gripe - e estudos a se completarem fora sendo preenchido pelo carinho e especialidade de uma simples visita que, por ser simples, importante tornou-se e me mostrou que preciso sair mais, admirar mais o que quer que seja e, por fim, amar mais.
Era dia de jogo de futebol... jogo que nem vi.
Até a próxima!
Angelo Márcio.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Uma outra volta às aulas
Caros, leitores e amigos, é com alegria que volto a escrever. Realmente a gripe me foi muito prejudicial e, por mais que não queira admitir, com ela percebi ainda mais o quanto estou debilitado após 21 anos de lesão. A fragilidade do corpo entra em conflito com as vontades da mente e admitir fraqueza pode ser grande virtude.
Respiração tranquila após dias de tensa gripe que impediam a ida para a cadeira.
Agora posso voltar às aulas de Técnico em Informática com liberdade e corrida para não reprovar, pois este é o último semestre.
No post “Volta às aulas”, tive a oportunidade de relatar, descrever situações bem constrangedoras quanto à inclusão e minha vontade de estudar, agora, posso alegremente relatar o oposto, relatar o quanto os professores e coordenação de onde estudo foram compreensíveis e solidários comigo.
Quando percebi que demoraria um pouco mais para me recuperar escrevi aos meus professores explicando exatamente como eu estava e até por conhecê-los sabia que me ajudariam. Foram muitas faltas que levaram a perda importante de conteúdo, mas teve uma recepção de professor que resumo para todos.
No dia em que retornei, os companheiros de sala foram muito receptíveis e incentivavam minha permanência. Logo após esta aula fui conversar com um dos professores sobre como repor o tempo, a matéria perdida e ele primeiro me abraçou e perguntou se eu realmente estava bem. Diante de resposta afirmativa, ele – professor – apenas me disse para não me preocupar, que compreendia o que havia ocorrido e que eu seria ajudado.
Essas atitudes vieram de pessoas cuja preocupação com o ensino se mostrou exemplar. Não por ser comigo. Não por eu ser deficiente e sim por eu ser plenamente capaz.
Os dias não serão fáceis até a formatura, mas... Se forem fáceis não será conquista, será passatempo e meu tempo é precioso; o tempo de meu amigo que me leva todos os dias para a escola também é precioso, assim como precioso é o tempo que minha mãe dispõe para acordar cedo e deixar-me pronto para estudar e, para finalizar, enalteço a preciosidade do tempo dos verdadeiros mestres.
Assim agradeço aos professores da Escola Técnica de Ceilândia DF.
Até a próxima!
Angelo Márcio.
sábado, 29 de maio de 2010
Partilha social
As amizades construídas, bem como as mantidas antes e após meu acidente têm importância sempre extraordinária, pois conduzem meus dias para além da companhia dessas pessoas que amo e alavancam minha vida direcionando-a para ações que nunca imaginei executar.
Ação demonstra mobilidade e mobilidade é o que mais falta em um deficiente.
Vou deixar de tanta introdução e ir direto ao assunto.
Fui convidado por um grande amigo paraplégico, que é uma das pessoas mais corajosas que conheço, a ajudá-lo com um trabalho social junto a jovens de escola pública, com apoio da direção, claro, e em conjunto com outros padrinhos e madrinhas de turmas com as quais poderão conversar, conhecer e ajudar conforme as necessidades.. Ah! É assim que nos chamam: padrinhos ou madrinhas.
A escola sofre de um mal crônico que afeta a maioria das instituições de ensino das periferias brasileiras: A descrença na juventude e da juventude em si e em suas capacidades dando ares nebulosos à sua visão de futuro e transfigurando sonhos em pesadelos.
Mas podemos observar um princípio de mudança, pois a proposta partiu da própria diretora que acredita e quer melhorias sociais e afetivas para os estudantes.
Devido à gripe maldosa que ainda me assola, não pude acompanhar meu amigo em seu primeiro contato com esses alunos, mas, assim que o fizer descreverei para vocês, amigos e leitores, o desenrolar de mais este desafio.
Ao ser convidado para este valioso trabalho posso dizer que não pensei duas vezes para aceitar. Sim, somos limitados fisicamente, mas ao sermos convidados, meu amigo e eu, em momento algum houve dúvidas ou avaliações quanto a nossa condição de deficiente.
O que quero dizer com isso?
Quero reafirmar que todos são capazes de realizar ações importantes, independente de condições físicas, mas sendo coerentes, sendo realistas e, sobretudo, assumindo a condição de desafiadores de limites para assim saber com propriedade até onde se pode chegar.
Será que é possível saber?
Até a próxima!
Angelo Márcio.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Algumas quedas
Se alguém, em algum momento, ao ter lido o título deste texto pensou que eu fosse usar tombos metaforicamente para aludir às derrotas da vida, digo com sorriso de canto de boca que se enganou completamente. Serei literal.
Em um sábado destes da vida, alguns amigos e eu, sendo dois tetraplégicos, fomos a um tradicional “chá-de-panela”, que nada mais é do que uma reunião de família e amigos com presentes para o enxoval dos noivos e este tinha especialidade por ser de uma amada afilhada. Confesso que até hoje não sei por que usar a palavra “chá”. É chá-de-panela, de bebê, de fralda, mas eu ainda prefiro um bom e tradicional chá verde.
Durante o trajeto – a pé – ao descermos da calçada para o asfalto vi meu amigo tombar com sua cadeira e ficar com o rosto no chão. Felizmente ele não sofreu nada além do susto, mas passado isto começamos a fazer piadas com o ocorrido pelo simples fato de estarmos entre amigos.
O que me ocorre agora é mais um despreparo das pessoas dos órgãos competentes que devem ter pensado assim:
_ Já que este é um local um tanto quanto isolado, para que rebaixar a guia?
E vem mais. Paro e penso que os deficientes são limitados e isto é fato, mas, a cada dia, por mais que não queiramos, as estruturas físicas das cidades nos limitam muito mais. Parecemos com aqueles ratinhos de laboratório que ficam presos e os cientistas decidem para onde e por onde eles vão.
Imagino os “competentes” em uma sala ampla, mesa ao centro com cadeiras reclináveis para conforto em “duras” horas de trabalho e muito raciocínio, com um mapa da cidade, que normalmente não conhecem, olhando e decidindo se fazem rampas ou não; se melhoram a sinalização ou não e, por fim, após este trabalho árduo olharem entre si e ainda adiarem as conclusões por necessitarem de maior estudo.
Será pensamento irônico meu ou um pesadelo real? Loucura?!
Dentro da realidade, agora contarei uma de minhas quedas.
Fui convidado por freiras que administravam uma escola para, junto com elas, organizar um show com bandas ao vivo. Após muito trabalho, reuniões, busca de patrocínios, aluguel de palco e etc, vimos tudo correr bem e obtivemos lucro para a escola.
Ao sair do local do show, por volta das 2 horas da manhã, vi uma escada. Vi a barreira arquitetônica que mais tenho medo e agora saberão por quê.
Porque quando chegamos, eu e o amigo que me conduzia, próximo à escada, meu amigo virou a cadeira para subir de costas, com as rodinhas da frente levantadas. Já no primeiro degrau uma das freiras, em tom de brincadeira, perguntou se eu tinha seguro de vida. A resposta foi negativa. No último degrau ela retornou com a pergunta e obteve a mesma resposta.
Após vencermos o último degrau, meu amigo começou a virar a cadeira para continuarmos o caminho de frente. Foi aí que a coisa ficou feia. Esquecemos que após a escada havia uma pequena plataforma de concreto de uns dois metros de largura sobre um buraco que se estendia por toda a frente da escola. Para melhor visualizar, por favor, imagine um fosso de castelo medieval com sua ponte levadiça baixada e nós, pobres plebeus, sobre o ponte.
Antes de terminar o giro lembrei que a plataforma era estreita, porém tarde demais. A roda esquerda já havia perdido sustentação; meu amigo já havia perdido sustentação e os dois foram buraco abaixo. Ainda bem que não havia jacarés e creio que aqui Isaac Newton explicaria bem sua teoria.
Meus amigos leitores eu bati forte com a têmpora esquerda no chão e lhes digo: _ Eu vi a luz! (Hoje posso rir disso)
Mas logo depois percebi que tudo estava de lado e como a terra não mudaria seu eixo à toa, constatei que havia sofrido uma queda mesmo. Minha primeira reação foi mexer meu braço para confirmar a continuidade de meus poucos movimentos, saber como meu amigo estava e, é claro, pedir ajuda.
Rapidamente outros amigos vieram e efetuaram o resgate com minha orientação de como me segurar, remontar a cadeira em local SEGURO, transferir-me do chão, buraco ou fosso para ela e assim ir para casa.
Nesta queda em nada me feri. Já meu amigo, machucou-se um pouco. Machucou-se mais tentando me segurar, proteger-me, do que devido a queda propriamente dita.
Hoje, repito, conseguimos rir deste episódio com frequência, não por sermos sarcásticos, como assim julga uma minoria. Temos e fazemos a possibilidade de sorrir por sermos/termos amigos e felicidade transbordante.
SORRIAM TAMBÉM!
Até a próxima!
Angelo Márcio.

