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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Alguns privilégios (prévia de bodas de prata)

Existem momentos em nossas vidas em que duvidamos de tudo, dispondo ao descrédito quase irremediável até mesmo as vitorias mais significativas e neste momento, exatamente neste momento, as pequenas coisas tomam proporções incríveis e também exponenciais. Um exemplo claro é receber um não de quem amamos; um não circunstancial que outrora fora corriqueiro assume contexto de término de relacionamento, final de amizade, de amor, em fim, final de vida.
Este é um início dramático e sei bem disso, no entanto, não reflete em nada como me encontro emocionalmente agora e sim como estive diversas vezes e, evidentemente, saí deste estado ferino diversas vezes.
Pode soar irônico, mas a ideia de início depressivo veio imediatamente após o privilégio que tive de ser único expectador da bela melodia do canto de um canário do cerrado que pousara próximo a mim depois de dois sobrevoos.
Aquele pequeno canário liberto e majestoso fez-me sentir tão livre quanto ele, sem que um pensamento destrutivo habitasse minha cabeça e me perguntei como aquela criatura pequena e frágil conseguira tal feito.
Confesso ter repensado quase a vida inteira, confesso ter relembrado dores e docilidades vividas, recebidas e também por mim proporcionadas. Repensei também meu acidente e minha tetraplegia que no dia 14 de janeiro deste ano de 2014 completarão 25 anos, mas deixarei as bodas de prata para outra oportunidade e volto ao canário libertador.
Continuando, no meio das reflexões, percebi que a liberdade sentida veio do amadurecimento e experiências que somente ao tempo pertencem. Nós não controlamos o tempo e contrariando o que diz o poeta Renato Russo em sua música “Tempo Perdido”, não temos todo o tempo do mundo, todavia, agora em concordância, “temos nosso próprio tempo”, temos uma única vida e na verdade, ou melhor, em minha verdade, temos sim é o poder de eternizar todos os momentos da vida para fazê-la completa, repleta de adereços, imagens e histórias a serem compartilhadas, pois guardar histórias é matar e morrer aos poucos e o esquecimento é a mais sofrível das mortes.
A apresentação solo do nobre canário durou poucos segundos e é exatamente de segundos que precisamos para escolhermos sermos felizes ao nosso modo ou tristes, também ao nosso modo e, em hipótese alguma, podemos culpar alguém por tristezas ou eleger um outro alguém como o detentor de nossas alegrias perenes.
Falando assim parece que dou à vida um ar de egoísmo, de que devemos viver sem dar a importância devida àqueles que nos cercam. 
Enganam-se! Lembram-se da palavra compartilhar? Pois é... A vida, a felicidade, a vontade de mudanças devem ser compartilhadas como um tesouro e não entregues como quem a um ladrão entrega sem resistir seus bens mais preciosos. 
Mas calma! E o amor? Apresento-lhes a única exceção. Somos aqueles que amam, e sim, também somos amados e quando compreendermos minimamente o quão a vida e o amor são unos nós...
Não posso continuar por não ter tamanha sabedoria para compreender a unidade entre vida e amor. Sei apenas que sou um privilegiado por viver e amar intensamente e mais nada.
Caso alguém venha a se perguntar como um simples canário conduziu-me a tais reflexões responderei de imediato com outra pergunta:
Quantas vezes você parou ou teve o privilégio de ouvir, de perto, um pássaro e sua melodia a encantar olhos, ouvidos e alma?

Até a próxima,

Angelo Márcio.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Fim de ano

Sou daqueles que percebem mudanças típicas de final de ano com uma certa melancolia, rispidez e uma questão:
_Por que esperar tanto?
Estamos permitindo que o depois vigore sobre o agora e isso, meus caros, é fatal.
A cada dia que passa, por motivos diversos, a capacidade nata de mirar e viver alternâncias marcantes vem sendo substituída por uma vontade vazia de sermos apenas expectadores e assim observar, apenas observar para, a duras penas, no depois, chorarmos perdas irreparáveis sem possibilidade de retorno.
_Como eu queria que o tempo voltasse!
_Sinto muito, mas sua chance se perdeu em sua inércia, dormência... torpor.
É claro que essa não é uma verdade completa e mentira também não é, pois não há muito ou pouco tempo para dos amores, amizades, dores e esperança trazer para si intensidade de vida.
Assim, humildemente, peço a mim e a vocês:
_Vamos viver com intensidade e verdade todos e quaisquer momentos desta história que é nossas vidas!
Aqui releio o texto e começo a sorrir para as surpresas que hão de vir e do quanto vivo tudo o que critiquei, do quanto já vivi e o que vivi, mas quero mais, muito mais e serei feliz, ou melhor, seremos FELIZES.
Tenham um belo final de ano e até a próxima!

Angelo Márcio

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Sem palvras

Após seis longos meses sem publicar novos textos, celebro o dia de hoje como um retorno calmo e repleto de significados, pois em seis meses uma vida inteira pode ser contada e, nesses poucos dias, uma vida de diferentes atos, sensações, vitórias e derrotas fora vivida.
 
Em cada crônica deficiente, dentro de uma sensibilidade particular, transito em reais acontecimentos sob uma ótica de quem vive as dificuldades inerentes a tetraplegia e, evidentemente,  também as descobertas da nova vida disposta na alma, corpo e intelecto.
 
Tenho amado e assumido o quanto amo muito mais que antes; tenho superado barreiras pessoais e interpessoais; tenho realizado sonhos que julgava serem possíveis somente se andasse. Na verdade, tenho vivido intensamente meus dias que, às vezes, vejo-me diante do inusitado e difícil... Um sorriso surge e vou em busca de novos desafios.
 
Nos últimos dias, sinceramente, relutei em retornar com o Uma Crônica Deficiente e confesso que quase fechei o blog. Por que? Até hoje me questiono e não obtive respostas.
 
Dias intensos e também tensos.
 
Em dias assim a alternância de sentimentos e tudo mais que completa a vida toma proporções descontroladas. Por mais que tenha os pés no chão há a vivência do não saber como agir e volto a ser criança. Mas uma criança adulterada pelas certezas incoerentes da fase adulta.
 
Exemplo:
 
Crônica de um parágrafo
 
Noite de festa com parque, roda gigante com desenho de estrela formado por lâmpadas, sons misturados e característicos de festas interioranas levaram minhas lembranças para a infância e mantém meu corpo inerte na atualidade. Numa dualidade de percepções que fazem das lágrimas companheira constante no gozo, na dor e no torpor de um instante de sonho.
 
É bom estar  de volta!
 
Até a próxima,
Angelo Márcio.

terça-feira, 22 de março de 2011

Uma noite de carnaval

carnaval cronica deficiente É extremamente fácil comparar e fazer com que a palavra carnaval se torne adjetivo e substitua palavras como alegria e festa.

E foi em um dia de carnaval, mais exatamente uma noite de carnaval, noite quente, de pouca brisa e absurdamente convidativa para sair da quietude e se deixar conduzir por pessoas queridas pelas avenidas de uma cidade interiorana, onde os sorrisos eram como apelos para que, naquela noite, o julgamento muitas vezes imposto por mim em virtude da deficiência fosse então passível de absolvição. E o juiz da consciência bateu o martelo e disse: Liberte-se!

A avenida ornada por grandes palmeiras que há muito tempo atrás eu conseguia tocar suas folhas com a mão, naquela noite eram moldura primária de um quadro composto por pessoas que se querem bem.

Primeiramente, era visivelmente necessário que parássemos em uma sorveteria no intuito de amenizar o calor e, claro, conviver, conversar, sorrir e apreciar como nunca a companhia uns dos outros enquanto nos deliciávamos com picolés e sorvetes. Ao final desta festa gelada observou-se um silêncio. Este era o momento em que eu realmente decidiria se iria ou não ao baile de carnaval, pois mesmo feliz ainda havia dúvidas, no entanto, lembrei-me que a mãe das preciosidades que haviam me tirado do marasmo, um dia antes afirmara que suas filhas somente iriam ao baile em minha companhia. Sendo assim olhei para elas e perguntei como quem afirma se queriam ir e é fácil concluir que a resposta fora afirmativa. Quatro belos sorrisos que diziam sim.

Isso não quer dizer que tenha ido por obrigação. Não! Muito pelo contrário! Eu não perderia a oportunidade de estar com quem quero bem em dia de alegria. Se perdesse seria, com o perdão da expressão, um idiota.

Fui conduzido então até o local do baile. De longe era possível ouvir a música e também ver as luzes e o colorido típico de festas carnavalescas; para adentrar o local, passamos por um caminho que dividia dois lagos sendo o da direita mais antigo e o da esquerda muito próximo de onde eu sofrera o acidente, onde iniciei uma nova vida.

Foi impossível passar por ali e não lembrar o dia em que deixei de sentir e movimentar boa parte de meu corpo.

Havia jovens, famílias inteiras e a sensação de liberdade fazia com que a imobilidade fosse momentaneamente esquecida e a insensibilidade substituída por uma vontade sensível de ser feliz, de estar feliz e de proporcionar felicidade também àquelas jovens, preciosas jovens, que amavelmente me faziam companhia. Naquele momento elas nem imaginavam o quão grande e importante havia se tornado uma singela ida a um baile de carnaval.

Em dado momento uma delas veio até mim, com olhos brilhantes, para perguntar se eu me importaria em ficar um tempo sem companhia para que pudessem andar um pouco, ver a banda de perto, encontrar amigos, em síntese, fazerem o que a juventude deve fazer – divertir-se. Minha resposta foi tranquila e objetiva ao dizer que poderiam ir, ou melhor, que deveriam ir.

Sem que eu pedisse, sempre voltavam para saber como eu estava, ficavam um pouco e retornavam a viver sua juventude em festa.

Enquanto estava sozinho, em tese, fora possível ali refletir sobre a importância de querer e poder viver ao lado daqueles que amamos.

Um detalhe: Chegamos em casa às três horas da manhã.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

terça-feira, 1 de março de 2011

Quem continuará meu legado?

cronica deficiente flor cacto Essa questão surgiu alguns anos atrás quando a possibilidade de sair de casa era bem maior e o número de pessoas fisicamente próximas também era maior. Era um tempo em que distâncias variadas eram superadas sem lamúrias para a simplicidade de reunir amigos em um almoço, por exemplo. Não havia tantos empecilhos como hoje e agora é possível perceber o que antes se anunciava... As coisas mudam.

O dia em que a questão sobre legado fora levantada eu estava só com meus pensamentos e, para alguém estar só é necessário que antes tenha estado em companhia agradável, ou do contrário, apenas fora cumprimentado. E este não era o caso. Eu havia passado a tarde inteira a conversar com a conversar com uma pessoa incrível que saía de sua casa, distante três quilômetros, para visitar-me e eu sempre retribuía com o auxílio de meus amigos.

Passaram-se anos e pensei ter esquecido a preocupação com a continuidade de algo que tenha iniciado. Talvez um pensamento despreocupado também, mas ultimamente, no alto de meus 37 anos e bastante afetado pela tetraplegia o instinto paternal inerente mostra-se sem pudor e traz consigo outra vontade além de andar novamente: A vontade de ser pai.

Mesmo sabendo que um tetraplégico pode ser pai, principalmente com auxílio da ciência moderna, o que seria de felicidade inimaginável, seria suficientemente completo ter apenas alguém a quem pudesse um dia chamar carinhosamente de filha ou filho.

Assim posso afirmar que a cada dia compreendo melhor que na simplicidade posso encontrar um mundo de perfeições invisíveis a muitos olhos cegos por opção.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Olhar além – Ir além

cronica deficiente alem No ultimo dia 14 de janeiro foi o aniversário de 1 ano do Uma Crônica Deficiente e também a soma por vezes indigesta, porém assumida com vontade incomum de 22 anos de tetraplegia. A expressão “incomum” hoje adquire, não a diferenciação de nomenclaturas ou estado físico, mas uma reflexão do quanto o diferente assusta, faz com que atitudes inaceitáveis sejam postas em prática e agora saio do meu mundo egoísta para ter proximidade com outras realidades.

Dois jovens que sorriem na vida e contam histórias que provocam risos, por um momento, relataram dores e feridas abertas em suas infâncias que até hoje marcam suas curtas trajetórias até o momento – ainda vão viver muitas histórias.

Eles não aprofundaram e nem eu quis provocar esta atitude, pois a liberdade é doce e aquele que impõe perde-se por não compreender a violência de seus atos.

E foi assim que em poucas palavras um jovem que nascera com dificuldades para respirar, uma má formação no céu da boca e lábio superior que obrigaram a tratamento e cirurgias questionou-me quanto a preconceito e, logo em seguida, a jovem de tranquilidade invejável e disposição constante de estender a mão fez coro na questão preconceito.

Peço perdão aqui por não saber denominar as deficiências destes jovens, mas continuarei com cuidado.

Os dois foram diretos ao afirmarem que sofreram muito na época escolar, principalmente nos primeiros anos. O que era para ser uma época de descobertas, de inserção social e de aumento do conhecimento os levou a anos de apelidos indesejáveis e de violência em suas vidas. Não me refiro à violência física, mas àquela que traz tanta dor quanto o que nos faz sangrar.

Assim imagino o isolamento causado e contemplo suas vitórias em poucas palavras. Isolamento este que em seus resquícios ainda aflora no relacionamento com a sociedade.

Em dado momento surgiu a expressão: “Até mesmo a professora me sacaneava e induzia os alunos”.

Neste caso, em específico, foi movida uma ação de pedido de indenização que fez com que a professora pedisse desculpas e, também, para que o processo não continuasse e além de pagar indenização ela, a “mestra”, não perdesse seu emprego. Bem, a bondade do coração da mãe descontinuou o processo e não me atrevo a julgar sua atitude.

Em outro detalhe fora revelado que era necessário, literalmente, lutar contra as perseguições, não para se impor, mas para defender-se daqueles que diante do que não reconhecem como comum recorrem ao ataque.

Sim! Durante e depois da conversa, sorrisos que só tem quem vence fizeram-se música e ilustração perfeitas.

Agora questiono:

_Até quando, deficientes ou não, necessitarão passar tal violência vinda do preconceito e também provar dia por dia suas capacidades desacreditadas por ignorância?

_Até quando?

Até a próxima!

Angelo Márcio.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Um ano não e uns dias

cronica deficiente um ano Há um ano atrás, exatamente no dia 14 de janeiro, fora publicado aqui o primeiro texto com o título de “Uma Crônica Deficiente”, com as reflexões que conduziram à criação do blog e celebração de vida.

Um ano se passou e muito do que propunha, sonhara, quisera e, também por que não, do que não desejara ocorreu. Estudei, diverti-me, fui a festas, trabalhei, amei, chorei e assim celebrei a vida dentro de uma margem de limites que a cada conquista aumenta a visão de horizontes.

Se o blog faz aniversário, fatalmente minha deficiência também faz; e neste mesmo contexto tudo o que é composição de vida também faz aniversário em uma festa de 365 dias e 6 horas que não podem ser esquecidos.

O tempo é precioso!

Passamos boa parte de nosso tempo reclamando que não temos tempo e deixando de fazer o que queremos; deixando de estar ao lado de quem amamos usando uma desculpa incoerente, pois somos nós que fazemos nosso tempo e, também por uma ingenuidade disfarçada, nos dispomos como reféns deste “pouco tempo” que temos e assim vamos nos perdendo sem muita opção ou caminho de volta.

Neste um ano aprendi mais e com mais pessoas também.

Aprendi, ou melhor, reaprendi a celebrar a vida em família.

Aprendi a externar mais o que sinto e a dizer a quem quero bem o quão é importante e a viver o que digo.

Aprendi, consegui amar verdadeiramente e a dizer que amo.

Aprendi muito mais...

Tudo o que foi escrito, descrito e relatado aqui sempre teve alguém que impulsionasse sem que seus nomes fossem revelados, até para dar liberdade a quem lê de poder se colocar como personagem.

A estes “alguéns”, preciosidades, linda moça, doce moça, amigo, amigo de outro continente, tia, avó, avô, irmão, irmã e, claro, minha mãe, obrigado e a vocês ofereço o vídeo a seguir.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Do outro lado…

cronica_deficiente_avo2 Em dias de festa de final de ano, costuma-se dizer que a reunião familiar é ato corriqueiro e, sem sombra de dúvida, de felicidade também. E para seguir esta tradição, 400 KM foram percorridos e sempre com sorriso de quem vai para celebrações de felicidade constante.

Ao chegar à frente da casa, o portão verde em formato de grade era inconfundível; assim como também eram inconfundíveis a arvore da frente, a pequena rampa para adentrar o lote, o canteiro à esquerda, a visão frontal da casa de cor branca e verde com pequena área ladeada de plantas e emendadas por batentes baixos que mais parecem bancos, ou melhor, são bancos com rosas. Estas áreas também são chamadas de alpendre. Em uma das laterais que dão acesso aos fundos da casa ainda havia plantas em vasos e o mesmo chão de cor verde.

Sim, tudo inconfundivelmente igual. Era assim que era pra ser, mas algo diferente habitou os olhos e fez o coração acelerar.

Em uma rede, no final do corredor, encontrava-se uma mulher no alto de seus 87 anos de vida intensa e batalhas muito mais duras; uma mulher que criara e educara 16 filhos e que já carregava cicatrizes no coração por ter sepultado 8 destes filhos; uma mulher de decisões coerentes a seu coração e contraditórias ao que rege o mundo que insiste em nos moldar. Esta mulher que tanta força irradia fora vitima de um dos piores acidentes que ocorrem com idosos, um acidente que faz com que a bacia seja quebrada e ela, caros amigos e leitores, ela é minha querida avó.

Um dia descrevi seus olhos marejados e hoje posso imaginar um pouco de sua dor ao me olhar. Confirmar sem receio o pensamento que temos de que nada ocorrerá conosco.

Quanto engano!

Não é fácil nos colocarmos no lugar daqueles que choram. Ela, minha avó, chorou por mim, por ter ficado tetraplégico em um acidente e hoje eu – o neto – amargamente, sinto a dor contida em seu olhar abatido e busco forças para animá-la um pouco que seja... e desse pouco surgem sorrisos.

Não é fácil estar do outro lado!

Até a próxima!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O orfanato

Cronica_deficiente_orfanato Por dias seguidos ouvi uma voz de criança me perguntando se era nesses dias que haveria uma festa para ele e seus vizinhos; minha resposta era sempre um pedido de calma e pergunto: Como pedir calma a uma criança que vive em um orfanato – não por não ter família – afastada de sua família por decisão judicial e pelos motivos mais diversos, duros e cruéis que uma criança não deveria viver?
Assim foi precedida a visita e festa do grupo de jovens - no qual felizmente trabalho - a um orfanato diferenciado em nosso pouco saber, pois imaginávamos que orfanato era para quem não tinha mais seus pais, no entanto, não estávamos tão errados, pois, de certo modo, conforme a realidade deles, a maioria não tinha mais os pais verdadeiramente amando-os e por perto.
 Um lugar de cores fortes onde na entrada, após um imenso portão, via-se uma área limpa, coberta, bem iluminada que dava acesso ao refeitório com mesas e cadeiras coloridas – sendo algumas bem pequenas.
Em uma lateral havia um conjunto de casas bem juntinhas e também com cores fortes e diferentes. É nessas casas que as crianças e adolescentes moram; por isso usei o termo vizinhos ao referir-me à criança que pedia a festa.
 Sim! A visita ou festa ocorreu com palhaços, brincadeiras, comidas e muita alegria e troca de conhecimentos entre jovens e crianças sofridas. Aprendemos que olhar o horizonte é muito mais engrandecedor do que verticalizar a ânsia de viver. Aprendemos que um sorriso provocado é paz para alma mesmo em corpos cansados. Aprendemos o que já sabíamos também: Que crianças não cansam facilmente de brincar e após estes aprendizados vi um grupo de palhaços jovens dispostos ao chão exauridos, porém sorrindo e vez por outra uma criança perguntava a mim e outro amigo tetraplégico o que havia ocorrido conosco.
Mais uma vez a curiosidade sábia das crianças.
 Havia neste local de isolamento involuntário uma reciprocidade de necessidade de carinho e um pouco, pouco que seja, de atenção.
 Até a próxima!
 Angelo Márcio.
Ofanato Abrigo Lar de São José image

sábado, 18 de dezembro de 2010

O lado obscuro (retorno)

Obscuro_cronica_deficiente
Título estranho este. Principalmente quando se refere a um retorno.
Isso mesmo! Uso a palavra obscuro para ter certeza de que a luz do retorno é verdade dentre dúvidas, fugas e ataques de quem se sente acuado e o ataque se torna defesa.
E a verdade é assumir que somos todos falíveis.
A verdade é assumir que em minha deficiência deparei-me com o inusitado não ocorrido em mais de vinte anos.
Deparei-me culpando inocentes e questionando insensivelmente meus limites, deixando-me ser levado por julgamentos parciais.
Chega de metáforas!
Aprendi que assumir defeitos, medos ou incertezas não são sinais de fraqueza e sim demonstração de amadurecimento daquele que busca viver segundo princípios que somente crescimento trazem a este que vive.
Em vinte anos de deficiência assumi nunca ter ficado deprimido ou, pelos menos, afirmava que as situações que a este estado levavam passavam rápido. Hoje aprendi que realmente passavam. Sim! Passavam.
No entanto, desta vez, demorou um pouco mais e trouxe dor. Muita dor.
Tentei esconder dos amigos e outras pessoas queridas para manter na obscuridade e, creio que de alguns escondi, porém não de todos. Tive que pedir ajuda.
Ao pedir ajuda mantinha à sombra minha real situação e recebi alguns “nãos” e vi que esconder só piora, em nada ajuda.
Não culpo ninguém e nem tenho porque culpar. Por que temos sempre a necessidade de culpar alguém?
Se eu tentar explicar mais aqui acabarei por complicar ainda mais.
O que importa é que esta foi mais uma batalha vencida que deixou cicatrizes e ainda há feridas abertas. Certamente estou diferente e serei diferente. Nunca, mas nunca, INDIFERENTE.
É muito bom estar de volta!
“Auto-exílio - nada mais é do que ter seu coração na solidão” (Renato Russo)
Até a próxima!
Angelo Márcio.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Um anjo para um dia

cronica deficiente roda gigante Quanto vale a vida? Qual o peso em ouro de um sorriso?
Questões de respostas difíceis ou impossíveis que surgiram após a visita a um hospital que cuida de crianças com câncer e, caros leitores e amigos, quero apenas descrever o que vi e senti em breves momentos.
Uma senhora cuidava de uma criancinha bem pequena e em sua força de mãe pensava em levar a criança para São Paulo, onde tem parentes, para lá deixar a criança em boas mãos e assim retornar para poder cuidar da saúde da mãe da criança adoentada.
Este desprendimento quase passou despercebido.
Em outro quarto, sobre uma cama, encontramos um anjo pequenino e tenho dificuldade em descrevê-lo; não sei como descrever mão tão pequena e frágil que com leveza chega ao alto com aceno e beijo de vida em meio a uma dor de doença de que, para muitos, é sinônimo de morte, mas me apego ao sorriso e beijo, clara representação de vida!
Seu sorriso de expontâneo também trazia a curiosidade infantil de, talvez, questionar-se por ter pessoas tão grandes a observá-lo; a ter uma aula de vida inteira em poucos minutos.
Tentem imaginar!
Atos tão pequenos de alguém também tão pequeno a enfrentar uma doença que é sempre transfigurada em monstro – o câncer.
Enquanto éramos apresentados ao pai desta criança, ele também sorria, e disse sorrindo em meio à dor que seu filho havia tido uma recaída e passado alguns dias na UTI. Então comparar este pai a um guerreiro fora inevitável, no entanto, ele nos cortou e com simplicidade amorosa disse que guerreiro era seu pequeno filho que estava sobre a cama e que ele – pai – era um simples soldado.
Neste momento posso dizer que nossos corações duros se quebraram diante de realidade tão admirável de vida.
Para esta visita ao hospital levei comigo minha mãe, um grande amigo e a doce moça. Abordei isso agora por que adiante virão fragmentos das percepções que foram ditas por nós durante este dia de vida.
“Tenho uma fotografia dele na minha mente.”
“Pode parecer exagero, mas hoje amadureci como pessoa.”
“Aquele menino me ensinou coisas pra vida inteira; coisas que não sei explicar. Passei o dia todo pensando nele.”
“Espero aprender mais a ser menor, entende? Senti-me tão pequeno hoje... “.
“Estou me achando tão mais tranquila com tudo.”
“Eu até dormi enquanto pensava em nossa manhã.”
“A gente estuda e pensa saber tudo, aí vem um sorriso e nos quebra.”
“É nessas coisinhas que Deus age e nos abençoa, nos fazendo pequenos. Naquela criança havia luz e luz só pode ser Divina.”
“Meus olhos brilhavam ao vê-lo. Eu estava com tanta vontade ir lá abraçar e conversar com ele.”
“Pode parecer exagero meu, mas este anjo pode ter aparecido, nos ensinado e nunca mais podemos voltar a vê-lo.”
“Me partiu o coração pensar nisso hoje.”
Meus caros, hoje vimos a fragilidade da vida e que vale a pena lutar por ela. A nossa e a de outros com outros “cânceres” criados, inventados, doentes da alma.
Encerramos com uma questão:
Como pode um garotinho que mandou um beijo fazer com que nós, horas depois, reflitamos tanto sobre a visão cativante de pequeno guerreiro?
Até a próxima!
Angelo Márcio e Renata Barbosa.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Acordei com 37 anos

cronica deficiente 37 anos Hoje acordei mais velho. Completamente consciente de que o tempo passa sempre em seus segundos, décimos, milésimos, mas me senti mais velho.
Ao iniciar este texto, que por razões inexplicáveis, vem sendo criado há dias e modificado a cada acontecimento, descobri que minha vida cada vez mais mostra seus contextos e entrelinhas. Muito não digo, não externo por medo, timidez e outras desculpas que sequer descreverei aqui, mas minha vida vem sendo, aos poucos, descrita aqui.
Sei que é um início meio complicado e nem sei se conseguirei desembaraçar tudo nas próximas linhas, mas deixarei a liberdade das palavras me conduzirem.
Quando era pequeno meu pai muito me reprimia por sua criação em vida difícil e interiorana e ontem, anteontem e outros dias, em fim, surpreendi-me com o tanto que me reprimo. Meu pai em quase nada queria que opinasse e agora, eu que externo quase tudo o que penso ou sinto, o que pode ser qualidade ou defeito, benção ou maldição para alguns, agora me vejo como adolescente envolto em dúvidas infindáveis.
Eu, realmente tinha por objetivo dar a este texto um ar de dureza e alta sobriedade, mas amigos, não consigo. Vejo-me apegado a enigmas que cada um que ler entenderá de forma diferente. O que não é e nem será problema, pois de uma forma ou de outra haverá entendimento.
Vi-me, em meio aos devaneios e razões buscando uma percepção maior da vontade/desejos, talvez tardios, de ter minha sensibilidade física de volta, de poder sentir os grãos de areia sob os pés como outrora, de amar ainda mais quem amo, quem me ama e, para despeito, também amar os que me odeiam. Essa vontade de andar, mover-se, também reflete no curioso, terno e tenso desejo de abraçar, acariciar e proteger a quem bem quero.
Não sofro ao descrever o que sinto e assumo que todos nós, em nossas dificuldades, limitações - sejam quais forem – já nos deparamos sonhando com milagres e, para os que não acreditam, nos deparamos criando outras realidades sendo vividas. Realidades diferentes e menos cruentas. Sonhos palpáveis em texturas rústicas de quem sorri em meio a amor e dor por antagonismo visível.
Não que ao sonhar venho a fugir da realidade. Muito pelo contrário. Quando sonho, mantenho minhas raízes e minha razão não se perde.
Hoje, se quisesse, poderia e posso dizer que tenho três idades: 15 anos andando, 21 anos de lesão e 37 anos de vida intensa sem resumos ou qualificações por agora... Apenas vida!
Em todas estas idades disse que amava alguém apenas uma vez e este alguém é minha mãe. Hoje concluo que tenho poucas pessoas que realmente amo e não perderei tempo tentando esconder delas. Creio que elas sabem que as amo, mas queridos leitores e amigos, quero sentir a liberdade casual e intensa de exclamar o amor que faço agora prisioneiro de meu temor de adulto. Como podemos peder tempo assim?
Como é doce a liberdade das crianças!
Não pedirei desculpas pela complexidade deste texto, pois ele reflete a complexidade de meus dias, minha vida e paixões que vivi e finalmente volto a viver verdadeiramente.
Obrigado a quem leu até aqui e, AGORA, sinta-se livre assim como me sinto liberto!
Até a próxima!
Angelo Marcio.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Viver! Amar! Por que não tentar?

cronica deficiente 5 eu

Primeiramente quero pedir desculpas aos queridos e amigos do Uma Crônica Deficiente pela ausência, mas eu não esperava que minha vida fosse tão agitada como nos últimos quinze dias.

Antes de viajar e começar o diário de bordo deixei uma chácara reservada por final de semana inteiro para cumprir mais uma das etapas que eu havia proposto para minha vida, ou seja, dedicar-me mais aos estudos, à família e aos amigos. A primeira proposta já fora cumprida, porém não em sua plenitude, e as outras duas tiveram seu início oficial no final de semana passado, pois, na chácara, consegui reunir minha família e parte de meus grandes amigos.

A chegada à chácara deu-se à noite. Estava comigo parte da família e alguns amigos que, dentre eles, destaco uma doce moça que afirmo ser a mais bela, querida e agradável companhia.

cronica deficiente 1 nós
cronica deficiente 3 sol

Enquanto meus irmãos e minha mãe jogavam baralho e cuidavam da parte de comidas eu ficava com os amigos a beira da piscina conversando e os vendo entrar naquela água supergelada. Momentos de risadas e pura vida descontraída. Perto da piscina conversamos sobre música, vida, estrelas e também tomamos um pouco de vinho até as três horas da manhã para depois nos recolhermos para dormir, ou melhor, tentar dormir, pois após deitar a doce companhia, um amigo e eu ficamos a conversar até o nascer do sol para que este pudesse ser fotografado e foi.

Amanheceu e fiquei o tempo quase todo a observar a família e os amigos se divertindo e por vezes lembrando que há três anos tentei fazer esta reunião sem sucesso. Lembro-me que na época do insucesso chorei muito, mas tinha consciência que um dia conseguiria.

Vi e convivi com aqueles que amo e afirmo que qualquer esforço para estar em convívio com tanto amor sempre valerá a pena, sempre será altamente frutífero.

Em dado momento, após o almoço, deitei-me em um colchão de ar sob a sombra das árvores para poder contemplar aquela efusão de felicidade deles e minha também.

Por alguns instantes tive a companhia da doce moça ao meu lado e falamos de quase tudo em poucos minutos. Também falamos de uma alegria que dividimos que era o fato de sua mãe estar deitada sob a sombra também a desfrutar da tranquilidade e descansar. Dessa vez o sorriso de felicidade foi duplo e compartilhamos de uma aparente tristeza: O dia estava chegando ao fim e precisaríamos ir para nossas casas, voltar para a realidade que compromete nossas horas e por vezes nos distancia até de quem mora sob o mesmo teto.

Em breve faremos outra reunião, pois, a passos lentos o que é natural e belo mastra-se. Correr? Quero apenas desfrutar com mansidão o pouco que posso ao lado dos que Amo.

Até a próxima!

Angelo Marcio.

cronica deficiente chao povo pppppppppppppppppppppppp3

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Gripe X Tetraplégico

CRonica deficiente gripe Inimiga feroz de qualquer um, mas ela, a gripe, parece ter uma mira à espera específica das fragilidades de um  tetraplégico. Com ela a palavra misericórdia é inexistente e substituída por expressões como: Sofra! Espirre! Tenha febre! Bem que poderia ser tenha fé, mas não, este vírus mutante e sem combatentes eficazes somente pode ser vencido pelo cansaço e cansa mesmo. Sem contar a canja de galinha.

Imagino, com medo, se uma gripe comum causa estragos o que me dirão o pavor diante do zoológico a surgir como sobrenome, é: suína, franco e nem quero saber de outros.

A maioria dos tetraplégicos tem em comum, dentre outras coisas, um frio ou calor intenso e uma dificuldade respiratória incômoda causados pela altura da lesão ou por uso da invasiva traqueotomia. Um tubo inserido em um buraco no pescoço, em um local que muitos chamam de “gogó”, para ventilar e permitir, ou melhor, induzir e melhorar a pouca respiração. Descrevo assim, meio reticente e temeroso porque não cheguei a necessitar de traqueotomia.

Meu maior temor quanto aos sintomas ou males da gripe é a tosse exatamente pela pouca ventilação pulmonar, pois... Tentarei explicar melhor assim:

Minha respiração é completamente “diafragmática” e o diafragma é muito exigido. Para perceberem este tipo de respiração que todos temos basta observar uma criancinha dormindo, pois poderão ver sua barriguinha subindo e descendo ou um cantor quando aparece o mesmo e não uma expansão visível dos pulmões. Como não sou criancinha mais – que pena – e, nem cantor para alívio dos ouvidos mais próximos, espero ter me saído bem.

Quando deitado, a própria força da gravidade ajuda a pesar sobre o músculo fazendo com que o ar saia com mais força e leve consigo as secreções causadas pela tosse, no entanto isso ainda pode ser pouco e nós, tetraplégicos, podemos precisar de uma mãozinha. Essa mãozinha se dá por meio de uma pequena pressão sobre o diafragma e tem horas em que até parece massagem cardíaca. Minha mãe já é craque, porém espero demorar muito a fazer uso desta massagem em minhas terapias.

Quando sentado a maldade da gripe faz par com a debilidade vinda com a lesão e o dueto canta e dança. Enquanto acontece esta festa um tetra sofre e muito. Sentado a pressão sobre o diafragma diminui consideravelmente e o ato de tossir se torna ato heróico. Muitas vezes respiro fundo e lanço minha mais forte tosse e tem gente que nem ouve. Imaginem a força! Mas o pior ainda está por vir. Por estar sentado e sem força para tossir a secreção pulmonar vai aumentando até o ato de respirar passar a inspirar um pouquinho de oxigênio e é algo agonizante. Se chegar a este ponto o melhor a fazer é manter a calma, já que para gritar por socorro precisa-se de muito ar, deitar ou por o tronco para frente para ventilar e sair da agonia.

É assim que ocorre comigo. O que não posso afirmar é que todos os tetraplégicos passam por isso. Realmente espero que não.

Agora uma “ironia do destino” que, com a licença de vocês, chamo de sacanagem mesmo.

Todo ano tomo a vacina para a gripe sazonal e já havia uns sete anos que gripe tão forte não me acometia.

Pois bem, numa segunda-feira começou a campanha de vacinação e na manhã seguinte, terça-feira, eu estava completamente gripado sem poder ir para a escola e honrar compromissos.

Não é sacanagem? (risadas) E fujam da gripe, tetras e não tetras, se puderem!

Até a próxima!

Angelo Márcio.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Curiosidades

Cronica deficiente curiosidade Estranho! Não existe a palavra tetraplegia no respeitadíssimo dicionário Aurélio. O que trouxe ainda mais curiosidade sobre esta palavra que, por vezes, lembra número de títulos ganhos em esportes como tetracampeão, tetrarecordista (essa eu inventei), mas chegou a dar coceiras e fui no Houaiss e nada encontrei. Até que cheguei ao Michaelis e, depois de até nutrir dúvidas, encontrei a palavra tetraplegia com o seguinte significado: “sf (tetra+plego+ia) Med Paralisia de todos os quatro membros, quadriplegia”.

Após toda esta busca, significado tão conciso e pouco explicativo deixou-me um tanto quanto decepcionado, pois sim, há a paralisia, no entanto ela não precisa ser completa. Qualquer falta de movimentos nos quatro membros pode ser considerado tetraplegia, pois de alguma forma os sinais nervosos emitidos para aqueles membros, após passarem pela coluna vertebral, estão sendo bloqueados por alguma lesão.

Não sou médico. Bem que gostaria de ser. E por não ser é que previno para não utilizarem os conceitos aqui como verdades científicas. Será mais prudente manter a inevitável licença poética e curiosidade que hoje é implacável.

Bem. Encontrei o que buscava e não foi o suficiente.

Quando li a separação silábica desta forma: “tetra+plego+ia” que me parece latim, passei de buscar significados, até por saber na pele, ossos e um pouco a mais, a buscar a etimologia desta palavra de som agradável: te-tra-ple-gi-a.

O prefixo “tetra” foi bem fácil, pois faz relação direta com o número quatro e são quatro os membros afetados. Foi necessário dar um salto para o sufixo “ia” que é muito utilizado na composição de palavras relacionadas com a ciência, por exemplo.

Por que saltar o meio? Por que saltar o que no dicionário Michaelis fora descrito como “plego”?

Porque neste meio de substantivo que, por vezes, torna-se adjetivo. Sim! Uma qualidade em meio à observância de tantos defeitos, fiquei imobilizado, estático por não encontrar o significado, literalmente paralisado e sem opções momentâneas. O que não quer dizer que desistirei aqui. Apenas beberei de outras fontes para saciar esta sede de conhecimento, pois escrevia este texto, pesquisava ao mesmo tempo e um dia escreverei aqui, mesmo em nota curta, tudo o que descobrir.

Nestes 21 anos de lesão assumo que nunca tentei encontrar os significados literais de muitas palavras novas que começaram a me acompanhar desde o início desta nova vida, desde o dia do acidente, mas sempre, por formação, pesquiso quase tudo o que traga curiosidade e peço para que os jovens com quem trabalho em uma comunidade católica procurem fazer o mesmo com as questões que à eles pertençam. Não custa nada e há ainda aqueles que optam pela ignorância por acharem o conhecimento demasiado pesado.

Ao falar de adjetivos ou qualidades uma realidade muito vista veio à mente ao pensar que somos seres fisicamente perfeitos imperfeitamente instruídos a enaltecer primeiro os defeitos ou erros para depois, bem depois, darmos notas curtas quanto às qualidades ou acertos.

Um homem pode cometer mil erros e seu nome será eternizado quando cometer o primeiro acerto.

Outro homem pode cometer mil acertos e seu nome será eternizado quando cometer seu primeiro erro.

Salvo as exceções, será que realmente é assim ou estou exagerando?

Até a próxima!

Angelo Márcio.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Vivendo e aprendendo

pare Sempre tive o hábito de ficar no portão de casa a observar a rua e o que nela acontecia. Via as crianças a andarem de bicicleta, brincar de bola, como realmente devem agir as crianças. Também via os adultos. Alguns também a brincar e outros a voltarem de suas jornadas de trabalho. Eles sempre me cumprimentavam e hoje também.

Porém, um dia, algo estranho aconteceu. Ao menos foi estranho para mim.

Era tarde de outono, eu no portão, meu pai sentado na área de casa em uma cadeira com forro de pano, nosso cachorro em sua casinha a olhar-me e, sem que eu percebesse um homem se aproximou. Ele tinha em mãos uma nota – dinheiro – que hoje equivaleria a algo como cinco reais, dois dólares talvez..

Bem. Eu não tive tempo de reagir, ou melhor, sequer eu soube como reagir.

Certamente aquele homem não teve a intenção de me ofender e nem deu tempo de eu pensar se era ofensa ou não em meus julgamentos, pois por mais que eu seja esclarecido, às vezes racional até demais, naquele momento, naquele breve momento, senti-me absolutamente sem saber o que fazer ou dizer. Perdi as armas e se, como afirmou o bom velho Newton que “toda ação requer uma reação de igual intensidade”, neste caso não se aplicou. Não posso esquecer que é uma lei da física e não de relações sociais.

É chato pensar que alguns membros da sociedade julgam os deficientes tão incapazes ao ponto de aliar deficientes com pedintes exatamente por erroneamente pensarem, de forma generalista, que os deficientes nada podem fazer em favor da sociedade, pois, mais uma vez erroneamente, julgam que a única contribuição coerente é a financeira.

E a Vida? E o Intelecto?

Aqui quero dizer que não estou julgando os pedintes. Mesmo aqueles que nos enganam, pois como eu já dissera antes cada um vive sua vida conforme quer ou conforme as situações que lhe são impostas e o fato de um homem me dar esmola me fez pensar e sentir o quanto a dignidade humana é ferida; o quanto deve sofrer um pai que se vê obrigado a pedir um pão para não comer e oferecer aos filhos depois de ter sido execrado por aqueles que se julgam socialmente justos.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Às Mães

Flor by Renata Barbosa É tarefa árdua adjetivar pessoas tão próximas de humanidade perfeita. As MÃES.

Se o mundo inteiro tomasse a decisão difícil de parar com os trabalhos, cursos, estudos e olhos grudados nas televisões e suas histórias fictícias seria presenteado com uma aula de vida e AMOR ministrada por mestres maternos com formação rica e especial. As MÃES.

Não há como distanciar MÃE de AMOR e se há alguma que foge do padrão. Exatamente! Por mais que a diversidade impere as vitoriosas MÃES seguem um padrão que se insere no AMOR, essas também não estão distantes deste AMOR.

Sabe, queridos leitores, hoje não quero me preocupar com regras de português ou redundâncias, quero permitir liberdade às mãos, usar frases feitas... Será que ainda é possível criar novas frases de AMOR para as MÃES? Este seria o concurso mais difícil para a humanidade: Crie uma frase nova de AMOR às MÃES.

“O AMOR é fogo que arde sem se ver; é ferida que dói e não se sente; é um contentamento descontente; é dor que desatina sem doer”. Será que Camões escreveu pensando nas MÃES? Quem poderá saber?

Um dia, há anos atrás, um velho amigo estava a palestrar sobre família e, com voz suave, pediu para que os presentes fechassem seus olhos. Naquele instante de silêncio percebi que se configurava um momento para as MÃES. E acertei. A lembrança mais concreta foi quando ele pediu para que imaginássemos o rosto de nossas MÃES; Para que aproximássemos imagem tão viva e acalentadora ao ponto de olharmos nos e os olhos de nossas MÃES; depois pediu para que percebêssemos as rugas localizadas ao lado dos olhos delas com a seguinte questão: _Por quantas destas rugas sou responsável?

Esta questão e reflexão até hoje me perseguem. Não com culpa. Aprendi a olhar para minha MÃE – nos olhos – e por eles tentar desvendar alguns segredos. Isso mesmo! Tentar a missão impossível de desvendar, descobrir, não algo a mais, mas algumas das coisas que AMORosamente as MÃES escondem para não sofrermos ou sermos afligidos por temores temporais.

Outro dia ouvi no meio de uma música do Renato Russo, ele gritar: _”Quem AMA não pode sofrer!” E pensei assim: Sendo o AMOR um algo desconhecido e ao mesmo tempo reconhecidamente perfeito, reitero o início ao afirmar que MÃES são os seres mais humanos na essência da perfeição que é o AMOR.

Elas não são nem as rosas ou perfumes líquidos, são o frescor aromatizado que fica no ar e é perceptível em breves suspiros por intermináveis momentos.

Agora, com olhos repletos de lágrimas, relembro o dia em que disse pela primeira vez, que AMAVA minha mãe. Fora um dia...*

Perdoem-me! Já não consigo mais escrever.

Perdoem-me! Ainda estou aprendendo a amar!

_Mãe, eu te amo!

_Mães, nós amamos vocês!

Até a próxima!

Angelo Márcio.

*Por favor, leiam o post UTI que entenderão porque parei o texto tão repentinamente.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Algumas quedas

cronica deficiente queda1 Se alguém, em algum momento, ao ter lido o título deste texto pensou que eu fosse usar tombos metaforicamente para aludir às derrotas da vida, digo com sorriso de canto de boca que se enganou completamente. Serei literal.

Em um sábado destes da vida, alguns amigos e eu, sendo dois tetraplégicos, fomos a um tradicional “chá-de-panela”, que nada mais é do que uma reunião de família e amigos com presentes para o enxoval dos noivos e este tinha especialidade por ser de uma amada afilhada. Confesso que até hoje não sei por que usar a palavra “chá”. É chá-de-panela, de bebê, de fralda, mas eu ainda prefiro um bom e tradicional chá verde.

Durante o trajeto – a pé – ao descermos da calçada para o asfalto vi meu amigo tombar com sua cadeira e ficar com o rosto no chão. Felizmente ele não sofreu nada além do susto, mas passado isto começamos a fazer piadas com o ocorrido pelo simples fato de estarmos entre amigos.

O que me ocorre agora é mais um despreparo das pessoas dos órgãos competentes que devem ter pensado assim:

_ Já que este é um local um tanto quanto isolado, para que rebaixar a guia?

E vem mais. Paro e penso que os deficientes são limitados e isto é fato, mas, a cada dia, por mais que não queiramos, as estruturas físicas das cidades nos limitam muito mais. Parecemos com aqueles ratinhos de laboratório que ficam presos e os cientistas decidem para onde e por onde eles vão.

Imagino os “competentes” em uma sala ampla, mesa ao centro com cadeiras reclináveis para conforto em “duras” horas de trabalho e muito raciocínio, com um mapa da cidade, que normalmente não conhecem, olhando e decidindo se fazem rampas ou não; se melhoram a sinalização ou não e, por fim, após este trabalho árduo olharem entre si e ainda adiarem as conclusões por necessitarem de maior estudo.

Será pensamento irônico meu ou um pesadelo real? Loucura?!

Dentro da realidade, agora contarei uma de minhas quedas.

Fui convidado por freiras que administravam uma escola para, junto com elas, organizar um show com bandas ao vivo. Após muito trabalho, reuniões, busca de patrocínios, aluguel de palco e etc, vimos tudo correr bem e obtivemos lucro para a escola.

Ao sair do local do show, por volta das 2 horas da manhã, vi uma escada. Vi a barreira arquitetônica que mais tenho medo e agora saberão por quê.

Porque quando chegamos, eu e o amigo que me conduzia, próximo à escada, meu amigo virou a cadeira para subir de costas, com as rodinhas da frente levantadas. Já no primeiro degrau uma das freiras, em tom de brincadeira, perguntou se eu tinha seguro de vida. A resposta foi negativa. No último degrau ela retornou com a pergunta e obteve a mesma resposta.

Após vencermos o último degrau, meu amigo começou a virar a cadeira para continuarmos o caminho de frente. Foi aí que a coisa ficou feia. Esquecemos que após a escada havia uma pequena plataforma de concreto de uns dois metros de largura sobre um buraco que se estendia por toda a frente da escola. Para melhor visualizar, por favor, imagine um fosso de castelo medieval com sua ponte levadiça baixada e nós, pobres plebeus, sobre o ponte.

Antes de terminar o giro lembrei que a plataforma era estreita, porém tarde demais. A roda esquerda já havia perdido sustentação; meu amigo já havia perdido sustentação e os dois foram buraco abaixo. Ainda bem que não havia jacarés e creio que aqui Isaac Newton explicaria bem sua teoria.

Meus amigos leitores eu bati forte com a têmpora esquerda no chão e lhes digo: _ Eu vi a luz! (Hoje posso rir disso)

Mas logo depois percebi que tudo estava de lado e como a terra não mudaria seu eixo à toa, constatei que havia sofrido uma queda mesmo. Minha primeira reação foi mexer meu braço para confirmar a continuidade de meus poucos movimentos, saber como meu amigo estava e, é claro, pedir ajuda.

Rapidamente outros amigos vieram e efetuaram o resgate com minha orientação de como me segurar, remontar a cadeira em local SEGURO, transferir-me do chão, buraco ou fosso para ela e assim ir para casa.

Nesta queda em nada me feri. Já meu amigo, machucou-se um pouco. Machucou-se mais tentando me segurar, proteger-me, do que devido a queda propriamente dita.

Hoje, repito, conseguimos rir deste episódio com frequência, não por sermos sarcásticos, como assim julga uma minoria. Temos e fazemos a possibilidade de sorrir por sermos/termos amigos e felicidade transbordante.

SORRIAM TAMBÉM!

Até a próxima!

Angelo Márcio.

cronica deficiente queda

sábado, 17 de abril de 2010

Um grito de dor

cronica deficiente vergonha Certamente influenciado pelos desabafos do Eduardo e seus amigos no blog Tetraplégicos, no post Desabafos…, e somando a fatos do cotidiano que em nada agradam, vi-me diante de limitações impostas e que feriram.

Tenho absoluta convicção de meus limites e, portanto, também dos consequentes esquecimentos, porém, às vezes, esqueço que sou deficiente e conduzo minha vida normalmente, pois cada um tem sua normalidade de vida conforme suas escolhas e o que lhe é imposto também.

Se fôssemos todos iguais seria uma vida normatizada, com regras iguais e, meus caros, na vida, a desigualdade vigora com poderosa força.

Um exemplo simples, concreto, real e desigual é saber que pessoas próximas ou não vão realizar alguma coisa, ato, sei lá... e você – neste caso eu – sabe que não pode participar exatamente pela limitação física.

A sensação de impotência é cruel.

Até se conseguisse ir, normalmente fico só por vários momentos, pois ninguém tem a obrigação de me ladear o tempo todo e isso se torna mais cruel do que não ir, já que estou no local e não posso conviver, de pertinho, aquele momento. Também posso estar errado. Será?

Agora a impotência regida pelos fatos faz parceria com a consciência de saber que, naquele momento, sinto-me incapaz; com vontade de gritar e sei que um dia porei para fora em alta voz. Por exemplo, para sair de casa mobilizo, no mínimo, 5 pessoas. Sei que todos ajudam por que querem. Mas pergunto: _E se não quiserem? Ou melhor, e quando não quiserem?

Sei que não me afundarei em depressão, mas... Por que não chorar?

Tenho uma personalidade de intensa luta e a pior derrota, das que tive, foi obtida tendo minha pessoa e suas limitações como adversárias e, como já afirmei que – ainda bem – somos todos diferentes; sei que minha forma de expressão pode parecer não tão direta, no entanto e felizmente, é para ser assim.

Há muito tempo atrás era fácil ter um grupo de pessoas ao meu redor com elogios, sorrisos e uma companhia agradável. Pouco a pouco fui percebendo que aquele não era eu, verdadeiramente falando. Não estava a enganar ninguém com a atitude de tentar agradá-los. “Doce” erro… Neste erro o grande enganado era eu! Sim! Outro erro! Enganar a si mesmo.

Erro corrigido a tempo.

Creio que depois que comecei a agir e falar como eu queria e não por convenções, muitos se dispersaram como poeira ao vento, deixando para trás, ou melhor, comigo, aqueles que confiavam, conheciam e se compadeciam com minha dor.

Assim me senti liberto e feliz.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Muito mais que amigos

quadra-de-volei Há dias venho relutando quanto ao fato de escrever sobre meu pai. São histórias que relatei diversas vezes em palestras, no entanto, encontro um bloqueio aqui. Uma parede erguida por mim.

Sendo assim escreverei, como já fora comentado, com um coração tranquilo e suas decisões. E o que me vem agora à mente são meus amigos.

Claramente lembro que após a saída do hospital, após 18 meses de internação e consequente institucionalização, eu tinha receio de sair até a rua, mas não adiantava muito esta insensata teimosia. Meus amigos vinham até minha casa, pediam a minha mãe que me arrumasse e sem perguntarem minha opinião levavam-me para uma das coisas que mais gosto: jogo de vôlei.

A rede estava armada no meio da rua mesmo, de um lado presa a um poste e de outro a um muro; as guias ou meios-fios serviam de linha lateral e as linhas de fundo, meio e 3 metros foram cuidadosamente pintadas em cor laranja, com espessura de cinco centímetros.

Fui posto, então, na lateral, abaixo da rede para ser o juiz. Eles, meus amigos, queriam que eu usasse o conhecimento adquirido no período de atleta para apitar o jogo, mas foi além, muito mais além que poderia imaginar. Eu apitava, sorria e, muitas vezes, dava dicas de jogo.

É evidente que agora me lembro de meu período de atleta – levantador – e creio que a prática esportiva ajudou, e muito, em minha recuperação até onde foi possível.

Eles me perguntavam qual a melhor forma de atacar ou levantar; se era bola curta, longa, chutada, meia bola, linha dos três, dois tempos e outros palavreados dignos deste esporte.

Mal sabiam eles, eu acho, que estavam me recolocando dentro de um estado de felicidade sem igual, pois mesmo sem poder jogar eu estava dentro do jogo e me sentia atleta novamente.

Meio contundido, mas atleta. (risadas)

Se biblicamente, ou não, pode-se afirmar que “quem tem um amigo tem um tesouro”, dou maior amplitude à afirmação dizendo que, simplesmente, sou um milionário.

Alguém vive sem amigos? Ou sobrevive?

Estes amigos que amavelmente chamo de “loucos” são até hoje parte extremamente importante de minha nova vida.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

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