sexta-feira, 9 de abril de 2010

Dia de paz

cronica deficiente paz Ainda era manhã quando adentramos por uma vereda ladeada por cerrado, capim, árvores e alguns animais para sustento da família. Um pouco mais adiante a casa pôde ser vista.

Ali seria meu refúgio por algum tempo.

Então me vi deitado em uma rede presa às vigotas do teto por cordas cuidadosamente amarradas. Senti-me bem!

Poderia até contar as telhas daquela varanda, mas este não era o objetivo e nem por hora seria. O vento fazia das folhas de palmeira bailarinas num dançar que de diverso parecia uniforme e belo. E também tinha música! Isso! Havia música para ouvidos atentos e, por que não, também para os desatentos.

Os trovões rompiam o silêncio proposto como o rufar de tambores em clássica música. Por fim veio a chuva e até os pássaros silenciaram diante de ópera tão perfeita.

Eu não queria estar em outro lugar!

É incrível o quanto nossos sentidos ficam aguçados quando estamos em paz e, erroneamente, buscamos, por vezes, a turbulência do conflito e seus ferimentos mútuos.

E durante esta sinfonia já anunciada, por mais louca que possa parecer ser minha decisão, confesso que quis ouvir músicas que eu já havia separado em um dispositivo eletrônico.

Mas repito quantas vezes for preciso: _ Eu estava em paz!

E com fones no ouvido, ópera natural e músicas atentamente selecionadas para aquele momento, adormeci.

Dormi como há dias não dormia e acordei bem mais feliz ao som de crianças brincando em um riacho próximo.

Poderia ser melhor?

Até a próxima!

Angelo Márcio.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Vocês precisam saber

Cronica deficiente by Renata Caríssimos leitores e amigos do Uma Crônica Deficiente,

Nos últimos dias estive impossibilitado de atualizar o blog com novos textos. Neste período os estudos e trabalhos com jovens me mostraram o quão carente de tempo estou.

Aqui posso externar que no início deste ano lancei como desafio me dedicar mais à família, em particular minha mãe, e também aos meus amigos, pois o corre-corre dos dias estava tomando mais tempo do que o necessário, que o devido. Estava, literalmente, roubando-me vida. E me vi envolto em diversas atividades que formavam barreiras e mantinha os que amo a distâncias incoerentes com minha decisão.

Sendo assim, resolvi dar pleno cumprimento aos novos desafios e, para começar, viajarei com minha mãezinha e digo a vocês:

- Nem de longe pensem que abandonarei o blog e enfatizo que a alegria, críticas e brincadeiras dos textos continuarão.

A todos os leitores e amigos um grande abraço.

Atenciosamente, ou melhor, até a próxima!

Angelo Márcio.

terça-feira, 16 de março de 2010

Volta às aulas

baskara_cron_def Não! Não irei adentrar nas incríveis conclusões e desenrolar das ciências biológicas e sim em acontecimentos – desafios – que me colocaram diante de preconceitos de uma ínfima parcela de professores.

Quando voltei a estudar, após vencer algumas barreiras particulares erguidas, dois momentos específicos demonstraram a falta de preparo e, porque não, também a ignorância de alguns mestres diante do inusitado: Um tetraplégico que não consegue escrever e que volta a estudar.

Para chegar até a escola eu era conduzido por um de meus irmãos pelas ruas mal conservadas, com seus quebra-molas fora de padrões e sempre uma distância que para ser percorrida levava cerca de 30 a 40 minutos de caminhada. Mas havia um objetivo e em certos trechos do caminho éramos obrigados a andar em chão puro. Era poeira ou lama, sem meio termo.

Na primeira avaliação – Matemática – senti-me constrangido por não ter uma forma de teste em que eu mesmo, com minhas dificuldades e adaptações necessárias, tivesse condições de responder às questões. Propus a professora que meu irmão escrevesse por mim, mas seu medo de que meu irmão me ajudasse além de escrever levou-a a não permitir e me vi com uma figura repressora a usar a caneta em meu lugar.

Digo repressora e acrescento preconceituosa porque em momento algum, durante as aulas, ela teve a preocupação de observar que eu tinha facilidade com a matéria e, principalmente, saber que em minha formação o ato de colar, trapacear não faz parte de minha personalidade, mas para saber disso seria necessário um contato mais particular. O que certamente ali não haveria.

Que tal esta equação? Falta de diálogo resulta em ignorância e leva ao preconceito.

AVISO:

Para aqueles que não gostam muito de matemática, o parágrafo abaixo será meio estranho. Será?

Eu tinha um papel diante de mim com equações do segundo grau e a fórmula de Baskara que até hoje conheço e, sem poder fazer rascunhos, pedia para que a professora escrevesse o que eu pedia. Eu queria resolver a equação sem desmembrar a fórmula e ela queria me obrigar a não fazer assim, pois havia ensinado os outros alunos com a fórmula dividida em duas. Tinha momentos em que ela começava a escrever de um outro jeito para me induzir e eu era obrigado a insistir que não estava errado.

Parecia que o tempo todo ela estava a me testar, a duvidar de minha capacidade intelectual e isso era extremamente irritante e para o azar dela a nota do teste foi bem alta.

Outro dia, em plena aula de biologia, sobre células e outras belezas, sempre com o auxílio de meus irmãos, após uma prova, o professor insinuou que minha nota havia sido alta porque meu irmão, supostamente, teria me ajudado. Eis as palavras do professor:

_ A maior nota da turma... Com duas cabeças para pensar fica fácil, não é?!

Meus amigos leitores foi necessário acalmar meu irmão, pois ele olhou para o professor de uma forma que se ele – professor – falasse algo mais uma agressão poderia ocorrer.

Pode parecer brutal ou aparentar que meus irmãos são inconsequentes, mas, naquele dia e situação, eles não conseguiam mais aceitar tantas dúvidas quanto ao meu intelecto; já estavam cansados de verem que a cada ano e matéria era necessário provar para outros o que eles, meus irmãos, já tinham consciência.

Mas teve o troco.

O professor passou um trabalho sobre efeito estufa e, com a ajuda de meus irmãos, fizemos cartazes para que a apresentação fosse mais interativa.

Sala cheia, quadro negro (que na verdade é verde), professor sentado ao centro, como dono do saber e começa minha apresentação.

Falei com propriedade sobre o assunto que havia estudado e os exemplos nos cartazes ajudaram a ilustrar para melhor assimilação do que estava sendo explicado. No fim, propositalmente, abri espaço para perguntas e, evidentemente, o professor levantou questões que eu respondia e ainda fundamentava com o uso dos cartazes olhando diretamente nos olhos dele que, por vezes, somente tinha o chão como ponto de fuga.

A turma inteira gostou do trabalho e aquele professor deve ter se lembrado de suas palavras infelizes ao me ver sozinho apresentar toda uma aula.

Até quando precisaremos provar se sabemos ou não, se podemos ou não fazer algo?

Quantos “se”!

Por favor, podemos dialogar?

Peço para que não pensem que estou generalizando, pois escolhi aqui descrever duas situações específicas vividas.

Em meus anos escolares, antes e depois do acidente, a oportunidade de aprender com ótimos mestres me faz hoje continuar estudando e também me faz agradecer a eles. Heróis mal remunerados e sem o reconhecimento devido que, com seus ensinamentos, passam a fazer parte de nossas vidas.

Também não tenho a pretensão de passar uma imagem de perfeito, até porque minha deficiência física é nada mais do que mais uma entre muitas deficiências que tenho.

Por que é mais fácil descrever defeitos do que enaltecer nossas qualidades?

Fica a questão.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

sexta-feira, 5 de março de 2010

“Não vou me adaptar”

muralha_de_pedra Liberdade!

Com este brado é fatídico que haja sim esta aclamda  liberdade e, por mais estranho que pareça, a repressão tem poder para vir ao nosso encalço de formas diversas concebíveis ou não.

E é com este início de dualidade que remeto minhas palavras aos anos 80.

Que maravilha de década! Não há razões suficientes, nem tão pouco argumentos como “o que já passou, passou” ou “quem vive de passado é museu” que me impeça de reviver estes dias... “Dias de Luta”.

Pode até parecer que o que virá a seguir seja chamado de mais um “refrão de bolero”, mas naquela década o “tédio” era nada mais do que um passa tento e sim, posso dizer que “há tempos” que ansiamos seu retorno com este brado: _ “Volta pra mim”!

Fique claro que eu não era nenhum “rebelde sem causa” em uma “terra de gigantes” e “ainda é cedo” para afirmar que voltar ao passado é voltar a sofrer, mas a cada amanhecer, a cada “alvorada voraz” posso e digo a mim e outros que a batalha continua, que somos “soldados” e não um “exército de um homem só”.

Agora um breve e dicícil relato..

Aos quinze anos, no ano de 1988, a beleza dos dias passavam despercebidas na mente de um jovem. Passavam também as paixões, angústias, dúvidas e certezas incertas inerentes a quem tem pouca idade.

Este jovem era atleta, louco por voleibol, sempre disposto a treinar e jogar; era apegado à família e, é claro, sempre tinha alguém por quem se apaixonar e, meus amigos, este era e sou eu.

Era porque muito mudou e aqui enfatizo a liberdade total. Uma irresponsabilidade saudável que, hoje, levou-me usar neste texto, entre aspas, títulos de muitas músicas que ouvi e ainda ouço, pois a qualidade musical atual em muito perde para a musicalidade rebelde e cheia de questões da década de 80.

_ Ô saudade de um show da Legião Urbana!

Enfim, sou eu porque a batalha pela vida e suas graças continuam e, para celebração incansável, continuei e continuo me apaixonando e por assim ser ainda surgiu algo ruim.

A parte ruim foi me apaixonar por bela moça de olhos falantes e cabelos convidativos para afagos, pois abrasei meu medo de dizer a ela tudo o que brotava no peito como perfume raro que só pode ser apreciado em manhãs perfeitas. Ainda assim uma interlocutora se fez necessário e, após trazer ao conhecimento da bela moça o que eu em nada conseguia expressar, a resposta foi:

_ Se ele não fosse deficiente...

Aí sim houve revolta e descrença...

Que todos possam me perdoar por texto tão confuso e melancólico, mas saibam e gravem, por favor, que... NÃO DESISTI DE ME APAIXONAR!

Até a próxima!

Angelo Márcio.

CLIQUE nos nomes abaixo e ouçam as músicas no Youtube:

Não vou me adaptar (Titãs)
Dias de luta (Ira!)
Refrão de bolero (Engenheiros do Hawaii)
Tédio (Biquini Cavadão)
Há tempos (Legião Urbana)
Volta pra mim (Roupa Nova)
Terra de gigantes (Engenheiros do Hawaii)
Ainda é cedo (Legião Urbana)
Alvorada voraz (RPM)
Soldados (Legião Urbana)
Exército de um homem só (Engenheiros do Hawaii)
Rebelde sem causa (Ultraje a Rigor)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A liberdade das palavras

fff Como é realmente engraçada, ou melhor, curiosa a verdade da máxima que diz que “só procuramos um médico quando estamos doentes”. Não estou abordando este assunto por estar acometido de alguma doença, muito pelo contrário, estou gozando de ótima saúde. Até acordei disposto para a prática esportiva, mas como muito também tem “mas”, faço disso uma brincadeira.

Espero não estar errado ou ser ofensivo. Quis fazer uma brincadeira com minha tetraplegia já que a maioria das pessoas com deficiência que conheço têm bom humor e, como bons brasileiros ou não, fazem piadas e em muitas destas piadas fazem uso de suas deficiências.

Por exemplo, tenho um amigo paraplégico que me chama de “quebrado”, pelo fato de eu ter quebrado a coluna e, em contrapartida, eu o chamo de “chumbado”, devido a um projétil de bala estar alojado em suas vértebras lombares. Pode até parecer humor negro ou sarcasmo, no entanto, não é.

Este foi só um pequeno exemplo e não quer dizer que eu não respeite aqueles cujas brincadeiras podem magoar. O que também não significa que sejam mal-humorados e é com dois comentários de diferenças que quero exaltar a importância de haver tantas pessoas diferentes tanto na forma de ver o mundo, como na maneira de conviver nele.

Hoje, particularmente, brinco com as palavras por gostar de fazer isso; gostar de expressar que em meio à razão, emoção, conflitos e atritos que permeiam minha imaginação ainda há espaço para uma criancice textual,

Aos mais atentos deve estar surgindo a questão:

_ Ele começa falando de médicos, passa por piadas, diferenças, por quê?

Resposta simples e não muito concisa:

_ Porque estou fazendo meus exames anuais, independentemente de doença, e porque eu quis escrever assim. Porque hoje me sinto mais livre, mais fascinado pela vida, bem como pelo que nela é perceptível ou indecifrável. Porque... porque... porque...

Finalmente porque depois de toda esta travessura de palavras repetidas e frases por vezes sem nexo ou compromisso, com respeito e irreverência, em nuança leve como brisa de manhã de verão, convidar a reflexões, imaginar palavras soltas e letras com asas como seres aladas, por fim os pontos, interrogações, virgulas como curvas de pensamento e exclamações para atos pedidos, relatos e também negações para, ao sair deste parágrafo, pedir:

_ ESCREVA O QUE PENSOU AGORA!

Até a próxima!

Angelo Márcio.

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