domingo, 25 de julho de 2010

Diário de bordo 1º dia

1 acordar

Ao acordar, ainda deitado, posso refletir com esta simples paisagem.

E não é que após a formatura e uma semana um tanto quanto entediante recebi um prêmio que posso afirmar ter sido inesperado.

Era uma sexta-feira bem fria. Minha concentração se voltava toda para os trabalhos com os jovens da igreja e também para uma reunião de família em meu aniversário no próximo mês. Reunião esta que tentei há três anos atrás e não consegui. Algo muito entristecedor.

Mas vamos ao prêmio.

Meu irmão Haia chegado de viajem do Tocantins e, possivelmente, iria para casa de meus avós no Goiás. Com isso entra em cena outro irmão e juntos decidem viajar no sábado pela manhã levando consigo minha mãe e eu, ou seja, tínhamos menos de dez horas para ajustar tudo, desde cadeira de rodas, materiais de cateterismo até as roupas, claro, e para deixar para trás o dia-a-dia da cidade grande.

Agora posso afirmar que estou na casa de meus queridos avós, com minha mãezinha, irmãos, primos, tios, gatos, periquitos e muita felicidade.

1 mangustao

Fruta da Bahia de nome Mangustão.

E, a partir de hoje, partilharei com vocês amigos e leitores, por meio de fotos e textos, o desfrutar deste prêmio amável.

Aqui se dá início ao meu diário de bordo.

 

Até a próxima!

Angelo Márcio.

domingo, 11 de julho de 2010

Um discurso

A aprovação no curso de TI já passara, faltava a formatura e com alegria aceitei o convite para ser o orador. Tive receio diante de um auditório lotado,mas aqui publico o texto de uma vitória com a qual espero abrir portas para outros deficientes que queiram lutar.

cronica form DISCURSO

“18 meses, LV, PHP, BD, SI. Envoltos em tempo e siglas, às vezes não percebemos alguns detalhes que vão além.

Por exemplo, não percebemos que para a maioria dos que hoje finaliza um ciclo houve dificuldades impostas pelo tempo e, porque não, também pela falta de tempo.

Sair de um trabalho de uma noite inteira, chegar no horário, sorrir e assumir que está desenvolvendo novas habilidades diante de tal barreira é puro estímulo.

Isso é vitória diária que não percebemos e por falar em percepções...

Não percebemos os olhares daqueles que tiveram o receio da reprovação.

Aqui se abre espaço para concretizar que o maior receio era o da reprovação pessoal. “Nadar e morrer na praia”? Não! Isso é o inconcebível.

Não percebemos que também havia medo.

Não percebemos que havia cumplicidade.

Não percebemos muito, mas hoje, celebramos juntos.

O que significa que afirmar que não percebemos agora seja errôneo.

Talvez, apenas tenhamos demorado em notar que o tempo passou e que cada um pôde vivenciar dias diferentes, problemas diferentes em soluções iguais que não fogem da palavra PERSEVERANÇA.

E somente os vitoriosos perseveram, lutam e também são teimosos ao extremo.

Cada um, quando decidiu estudar, aperfeiçoar ou simplesmente ter conhecimentos a mais, também projetou algo para o depois- o pós-curso.

Certamente pode-se dizer que muitos planos mudaram no decorrer dos dias e no avanço do conhecimento e não percebemos que nos tornamos mais maduros, flexíveis e conscientes que, independentemente de idades, nos tornamos mais humanos em um universo de máquinas.

“Ninguém nasce sabendo”!

Muitos aqui presentes já devem ter ouvido isso de seus pais ou dito isto, exatamente, por serem pais.

Hoje, noite de celebração, pode-se afirmar e modificar esta máxima e dizer para os que desistiram ou foram obrigados a desistir e para vocês, vitoriosos do curso de Técnico em Informática, que, já que ninguém nasce sabendo e nestes três semestres muito aprendemos, peço permissão a Drummond que afirmou que “o tempo não passa” e que cada dia é um “nascer toda hora” para dizer:

_O conhecimento é um tesouro, sendo assim, estou diante de milionários.

No entanto, para finalizar, repito para todos o que foi dito por um marido em apoio a sua esposa que hoje está aqui conosco: Valorize seu curso!

Parabéns a todos e continuem. Não parem por aqui!”

Até a próxima!

Angelo Márcio.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Dia de vitória

cronica deficiente proj fim Manhã fria após noite mal dormida, porém com bons sonhos. Na televisão o jornal anunciava as primeiras notícias do dia e também trazia as primeiras imagens da neblina fria como cartão de visitas do Planalto Central.

Minha mãe já cuidava de mim e preparava o café da manhã. Tudo ao mesmo tempo, pois seu filho tinha de estar bem vestido para o dia de apresentação do Projeto Final do Curso de Técnico em Informática. Algo importante para mim e para ela.

Assim que estava devidamente arrumado, dois amigos vieram me buscar e começamos nossa caminhada de vinte minutos até a escola técnica. No caminho íamos lembrando que estávamos prestes a terminar ou cumprir uma meta proposta que havia começado há dezoito meses. O ritual da caminhada se repetia, porém com ânimo diferente. Íamos enfrentar a banca examinadora.

Ao chegarmos à escola encontramos outros que partilhavam da mesma ansiedade e pudemos sorrir juntos, tremendo de frio e, porque não, de certo temor também, que para piorar, teve o auxílio de nosso professor orientador a nos assustar perguntando se estávamos preparados para a guerra com muito bom humor.

Eu digo que realmente estava nervoso, pois mesmo concluindo as matérias, havia perdido muita aula importante.

Levei um resumo do que deveria falar na apresentação, mas não conseguia ler e para aumentar a tensão o professor pediu para que apresentássemos primeiro e fomos para o auditório que só tem escadas e os mesmos amigos tiveram que me carregar. Aí o medo aumentou. Tenho trauma de escadas.

Apresentamos o projeto com muitos questionamentos da banca e logo depois eles saíram para deliberar. Mais nervosismo e, para não esquecer, tinha a escada para retornar.

O frio na barriga aumentava quando o professor retornou com a ótima notícia de que nosso projeto havia sido aprovado, que precisaríamos ajustar algumas coisas na documentação, mas que já podíamos nos preparar para a formatura. Fomos aprovados!

Agora uma breve reflexão:

Eu quis escrever este texto assim, direto, explicativo e sem reflexões exatamente para descrever a simplicidade e exuberância desta manhã vitoriosa.

Para muitos um curso técnico é somente mais um curso, no entanto, para mim que tenho consciência das dificuldades enfrentadas junto com este caro amigo que me conduzia de segunda a sexta, este curso fora de importância ímpar pelo aprendizado e amizades feitas, pela descoberta de professores incentivadores e, principalmente pela vitória pessoal.

Quanto às escadas?

Perdoem-me os mais críticos, mas hoje quero esquecê-las.

Não sou incapaz, tenho apenas limitações.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Dia de visita

vigilia sjo 2010 (7) Antes e depois do acidente que me levou a uma vida de limitações nada agradáveis e também de vitórias antes  inimagináveis, sempre apreciei celebrar a vida com aqueles que amo. E hoje não foi diferente! Foi mais uma feliz celebração.

Aqui preciso dizer que nós nos inundamos de afazeres que em nosso cotidiano servem, unicamente, como desculpas para aumentar distâncias que deveríamos, todos os dias, tentar encurtar.

Refiro-me à distância entre pessoas, entre amigos, entre familiares, entre quem bem queremos.

É inconcebível querer estar distante de quem se quer bem, de quem se ama.

Eu, muitas vezes, erroneamente, somo a enxurrada de afazeres à condição de tetraplégico para conjugar e trazer à ação o verbo distanciar e não é isso o que realmente quero, pois apesar de necessitar de alguém para me conduzir com a cadeira, gosto de visitar amigos –pessoas amadas – e tenho consciência que há aqueles com limitações muito maiores que as minhas. Limitações físicas ou não.

Mas se alguém pode mexer um braço, estaria ela impedida de um gesto de carinho?

Digo-lhes que em minha estadia hospitalar conheci pessoas em pior estado do que o meu e que, mesmo assim, sorriam, celebravam a vida de forma contagiante e foram mestres.

Mas hoje não!

Hoje ocorreu o inverso!

Ao ser visitado por alguém a quem quero muito bem a distancia dissipou-se e deu lugar a sorrisos, seriedade e felicidade por companhia tão agradável e amável. O vazio que eu criara com a enfermidade – gripe - e estudos a se completarem fora sendo preenchido pelo carinho e especialidade de uma simples visita que, por ser simples, importante tornou-se e me mostrou que preciso sair mais, admirar mais o que quer que seja e, por fim, amar mais.

Era dia de jogo de futebol... jogo que nem vi.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Uma outra volta às aulas

cronica deficiente fenix Caros, leitores e amigos, é com alegria que volto a escrever. Realmente a gripe me foi muito prejudicial e, por mais que não queira admitir, com ela percebi ainda mais o quanto estou debilitado após 21 anos de lesão. A fragilidade do corpo entra em conflito com as vontades da mente e admitir fraqueza pode ser grande virtude.

Respiração tranquila após dias de tensa gripe que impediam a ida para a cadeira.

Agora posso voltar às aulas de Técnico em Informática com liberdade e corrida para não reprovar, pois este é o último semestre.

No post “Volta às aulas”, tive a oportunidade de relatar, descrever situações bem constrangedoras quanto à inclusão e minha vontade de estudar, agora, posso alegremente relatar o oposto, relatar o quanto os professores e coordenação de onde estudo foram compreensíveis e solidários comigo.

Quando percebi que demoraria um pouco mais para me recuperar escrevi aos meus professores explicando exatamente como eu estava e até por conhecê-los sabia que me ajudariam. Foram muitas faltas que levaram a perda importante de conteúdo, mas teve uma recepção de professor que resumo para todos.

No dia em que retornei, os companheiros de sala foram muito receptíveis e incentivavam minha permanência. Logo após esta aula fui conversar com um dos professores sobre como repor o tempo, a matéria perdida e ele primeiro me abraçou e perguntou se eu realmente estava bem. Diante de resposta afirmativa, ele – professor – apenas me disse para não me preocupar, que compreendia o que havia ocorrido e que eu seria ajudado.

Essas atitudes vieram de pessoas cuja preocupação com o ensino se mostrou exemplar. Não por ser comigo. Não por eu ser deficiente e sim por eu ser plenamente capaz.

Os dias não serão fáceis até a formatura, mas... Se forem fáceis não será conquista, será passatempo e meu tempo é precioso; o tempo de meu amigo que me leva todos os dias para a escola também é precioso, assim como precioso é o tempo que minha mãe dispõe para acordar cedo e deixar-me pronto para estudar e, para finalizar, enalteço a preciosidade do tempo dos verdadeiros mestres.

Assim agradeço aos professores da Escola Técnica de Ceilândia DF.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

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