segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Do outro lado…

cronica_deficiente_avo2 Em dias de festa de final de ano, costuma-se dizer que a reunião familiar é ato corriqueiro e, sem sombra de dúvida, de felicidade também. E para seguir esta tradição, 400 KM foram percorridos e sempre com sorriso de quem vai para celebrações de felicidade constante.

Ao chegar à frente da casa, o portão verde em formato de grade era inconfundível; assim como também eram inconfundíveis a arvore da frente, a pequena rampa para adentrar o lote, o canteiro à esquerda, a visão frontal da casa de cor branca e verde com pequena área ladeada de plantas e emendadas por batentes baixos que mais parecem bancos, ou melhor, são bancos com rosas. Estas áreas também são chamadas de alpendre. Em uma das laterais que dão acesso aos fundos da casa ainda havia plantas em vasos e o mesmo chão de cor verde.

Sim, tudo inconfundivelmente igual. Era assim que era pra ser, mas algo diferente habitou os olhos e fez o coração acelerar.

Em uma rede, no final do corredor, encontrava-se uma mulher no alto de seus 87 anos de vida intensa e batalhas muito mais duras; uma mulher que criara e educara 16 filhos e que já carregava cicatrizes no coração por ter sepultado 8 destes filhos; uma mulher de decisões coerentes a seu coração e contraditórias ao que rege o mundo que insiste em nos moldar. Esta mulher que tanta força irradia fora vitima de um dos piores acidentes que ocorrem com idosos, um acidente que faz com que a bacia seja quebrada e ela, caros amigos e leitores, ela é minha querida avó.

Um dia descrevi seus olhos marejados e hoje posso imaginar um pouco de sua dor ao me olhar. Confirmar sem receio o pensamento que temos de que nada ocorrerá conosco.

Quanto engano!

Não é fácil nos colocarmos no lugar daqueles que choram. Ela, minha avó, chorou por mim, por ter ficado tetraplégico em um acidente e hoje eu – o neto – amargamente, sinto a dor contida em seu olhar abatido e busco forças para animá-la um pouco que seja... e desse pouco surgem sorrisos.

Não é fácil estar do outro lado!

Até a próxima!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O orfanato

Cronica_deficiente_orfanato Por dias seguidos ouvi uma voz de criança me perguntando se era nesses dias que haveria uma festa para ele e seus vizinhos; minha resposta era sempre um pedido de calma e pergunto: Como pedir calma a uma criança que vive em um orfanato – não por não ter família – afastada de sua família por decisão judicial e pelos motivos mais diversos, duros e cruéis que uma criança não deveria viver?
Assim foi precedida a visita e festa do grupo de jovens - no qual felizmente trabalho - a um orfanato diferenciado em nosso pouco saber, pois imaginávamos que orfanato era para quem não tinha mais seus pais, no entanto, não estávamos tão errados, pois, de certo modo, conforme a realidade deles, a maioria não tinha mais os pais verdadeiramente amando-os e por perto.
 Um lugar de cores fortes onde na entrada, após um imenso portão, via-se uma área limpa, coberta, bem iluminada que dava acesso ao refeitório com mesas e cadeiras coloridas – sendo algumas bem pequenas.
Em uma lateral havia um conjunto de casas bem juntinhas e também com cores fortes e diferentes. É nessas casas que as crianças e adolescentes moram; por isso usei o termo vizinhos ao referir-me à criança que pedia a festa.
 Sim! A visita ou festa ocorreu com palhaços, brincadeiras, comidas e muita alegria e troca de conhecimentos entre jovens e crianças sofridas. Aprendemos que olhar o horizonte é muito mais engrandecedor do que verticalizar a ânsia de viver. Aprendemos que um sorriso provocado é paz para alma mesmo em corpos cansados. Aprendemos o que já sabíamos também: Que crianças não cansam facilmente de brincar e após estes aprendizados vi um grupo de palhaços jovens dispostos ao chão exauridos, porém sorrindo e vez por outra uma criança perguntava a mim e outro amigo tetraplégico o que havia ocorrido conosco.
Mais uma vez a curiosidade sábia das crianças.
 Havia neste local de isolamento involuntário uma reciprocidade de necessidade de carinho e um pouco, pouco que seja, de atenção.
 Até a próxima!
 Angelo Márcio.
Ofanato Abrigo Lar de São José image

sábado, 18 de dezembro de 2010

O lado obscuro (retorno)

Obscuro_cronica_deficiente
Título estranho este. Principalmente quando se refere a um retorno.
Isso mesmo! Uso a palavra obscuro para ter certeza de que a luz do retorno é verdade dentre dúvidas, fugas e ataques de quem se sente acuado e o ataque se torna defesa.
E a verdade é assumir que somos todos falíveis.
A verdade é assumir que em minha deficiência deparei-me com o inusitado não ocorrido em mais de vinte anos.
Deparei-me culpando inocentes e questionando insensivelmente meus limites, deixando-me ser levado por julgamentos parciais.
Chega de metáforas!
Aprendi que assumir defeitos, medos ou incertezas não são sinais de fraqueza e sim demonstração de amadurecimento daquele que busca viver segundo princípios que somente crescimento trazem a este que vive.
Em vinte anos de deficiência assumi nunca ter ficado deprimido ou, pelos menos, afirmava que as situações que a este estado levavam passavam rápido. Hoje aprendi que realmente passavam. Sim! Passavam.
No entanto, desta vez, demorou um pouco mais e trouxe dor. Muita dor.
Tentei esconder dos amigos e outras pessoas queridas para manter na obscuridade e, creio que de alguns escondi, porém não de todos. Tive que pedir ajuda.
Ao pedir ajuda mantinha à sombra minha real situação e recebi alguns “nãos” e vi que esconder só piora, em nada ajuda.
Não culpo ninguém e nem tenho porque culpar. Por que temos sempre a necessidade de culpar alguém?
Se eu tentar explicar mais aqui acabarei por complicar ainda mais.
O que importa é que esta foi mais uma batalha vencida que deixou cicatrizes e ainda há feridas abertas. Certamente estou diferente e serei diferente. Nunca, mas nunca, INDIFERENTE.
É muito bom estar de volta!
“Auto-exílio - nada mais é do que ter seu coração na solidão” (Renato Russo)
Até a próxima!
Angelo Márcio.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Vivendo e aprendendo

Menos de um mês depois de visitar um anjo chamado Marcos descobri que ele havia falecido, que o câncer havia deitado ao solo o bravo soldado.

O vódeo a seguir foi feito com as outras crianças que continuam a nos emocionar e ensinar com força ímpar.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Dias sem palavras

 Cronica deficiente angelo Inicío pedindo desculpas sinceras aos leitores e amigos por ficar tanto tempo ausente.

Quero que saibam que ainda não é o retorno, que somente poderá ocorrer daqui uns dias, pois estou tendo alguns probleminhas que logo logo serão resolvidos e descritos aqui. Bem como as alegrias também.

Sabe, quando assumi o desafio de escrever aqui no Crônica Deficiente, não imaginava o quanto seria grande e nem as amizades que faria... fora a responsabilidade para com os leitores.

Assim agradeço e peço a calorosa compreensão de vocês.

Até a próxima! (MESMO)

Angelo Márcio.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Um anjo para um dia

cronica deficiente roda gigante Quanto vale a vida? Qual o peso em ouro de um sorriso?
Questões de respostas difíceis ou impossíveis que surgiram após a visita a um hospital que cuida de crianças com câncer e, caros leitores e amigos, quero apenas descrever o que vi e senti em breves momentos.
Uma senhora cuidava de uma criancinha bem pequena e em sua força de mãe pensava em levar a criança para São Paulo, onde tem parentes, para lá deixar a criança em boas mãos e assim retornar para poder cuidar da saúde da mãe da criança adoentada.
Este desprendimento quase passou despercebido.
Em outro quarto, sobre uma cama, encontramos um anjo pequenino e tenho dificuldade em descrevê-lo; não sei como descrever mão tão pequena e frágil que com leveza chega ao alto com aceno e beijo de vida em meio a uma dor de doença de que, para muitos, é sinônimo de morte, mas me apego ao sorriso e beijo, clara representação de vida!
Seu sorriso de expontâneo também trazia a curiosidade infantil de, talvez, questionar-se por ter pessoas tão grandes a observá-lo; a ter uma aula de vida inteira em poucos minutos.
Tentem imaginar!
Atos tão pequenos de alguém também tão pequeno a enfrentar uma doença que é sempre transfigurada em monstro – o câncer.
Enquanto éramos apresentados ao pai desta criança, ele também sorria, e disse sorrindo em meio à dor que seu filho havia tido uma recaída e passado alguns dias na UTI. Então comparar este pai a um guerreiro fora inevitável, no entanto, ele nos cortou e com simplicidade amorosa disse que guerreiro era seu pequeno filho que estava sobre a cama e que ele – pai – era um simples soldado.
Neste momento posso dizer que nossos corações duros se quebraram diante de realidade tão admirável de vida.
Para esta visita ao hospital levei comigo minha mãe, um grande amigo e a doce moça. Abordei isso agora por que adiante virão fragmentos das percepções que foram ditas por nós durante este dia de vida.
“Tenho uma fotografia dele na minha mente.”
“Pode parecer exagero, mas hoje amadureci como pessoa.”
“Aquele menino me ensinou coisas pra vida inteira; coisas que não sei explicar. Passei o dia todo pensando nele.”
“Espero aprender mais a ser menor, entende? Senti-me tão pequeno hoje... “.
“Estou me achando tão mais tranquila com tudo.”
“Eu até dormi enquanto pensava em nossa manhã.”
“A gente estuda e pensa saber tudo, aí vem um sorriso e nos quebra.”
“É nessas coisinhas que Deus age e nos abençoa, nos fazendo pequenos. Naquela criança havia luz e luz só pode ser Divina.”
“Meus olhos brilhavam ao vê-lo. Eu estava com tanta vontade ir lá abraçar e conversar com ele.”
“Pode parecer exagero meu, mas este anjo pode ter aparecido, nos ensinado e nunca mais podemos voltar a vê-lo.”
“Me partiu o coração pensar nisso hoje.”
Meus caros, hoje vimos a fragilidade da vida e que vale a pena lutar por ela. A nossa e a de outros com outros “cânceres” criados, inventados, doentes da alma.
Encerramos com uma questão:
Como pode um garotinho que mandou um beijo fazer com que nós, horas depois, reflitamos tanto sobre a visão cativante de pequeno guerreiro?
Até a próxima!
Angelo Márcio e Renata Barbosa.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Acordei com 37 anos

cronica deficiente 37 anos Hoje acordei mais velho. Completamente consciente de que o tempo passa sempre em seus segundos, décimos, milésimos, mas me senti mais velho.
Ao iniciar este texto, que por razões inexplicáveis, vem sendo criado há dias e modificado a cada acontecimento, descobri que minha vida cada vez mais mostra seus contextos e entrelinhas. Muito não digo, não externo por medo, timidez e outras desculpas que sequer descreverei aqui, mas minha vida vem sendo, aos poucos, descrita aqui.
Sei que é um início meio complicado e nem sei se conseguirei desembaraçar tudo nas próximas linhas, mas deixarei a liberdade das palavras me conduzirem.
Quando era pequeno meu pai muito me reprimia por sua criação em vida difícil e interiorana e ontem, anteontem e outros dias, em fim, surpreendi-me com o tanto que me reprimo. Meu pai em quase nada queria que opinasse e agora, eu que externo quase tudo o que penso ou sinto, o que pode ser qualidade ou defeito, benção ou maldição para alguns, agora me vejo como adolescente envolto em dúvidas infindáveis.
Eu, realmente tinha por objetivo dar a este texto um ar de dureza e alta sobriedade, mas amigos, não consigo. Vejo-me apegado a enigmas que cada um que ler entenderá de forma diferente. O que não é e nem será problema, pois de uma forma ou de outra haverá entendimento.
Vi-me, em meio aos devaneios e razões buscando uma percepção maior da vontade/desejos, talvez tardios, de ter minha sensibilidade física de volta, de poder sentir os grãos de areia sob os pés como outrora, de amar ainda mais quem amo, quem me ama e, para despeito, também amar os que me odeiam. Essa vontade de andar, mover-se, também reflete no curioso, terno e tenso desejo de abraçar, acariciar e proteger a quem bem quero.
Não sofro ao descrever o que sinto e assumo que todos nós, em nossas dificuldades, limitações - sejam quais forem – já nos deparamos sonhando com milagres e, para os que não acreditam, nos deparamos criando outras realidades sendo vividas. Realidades diferentes e menos cruentas. Sonhos palpáveis em texturas rústicas de quem sorri em meio a amor e dor por antagonismo visível.
Não que ao sonhar venho a fugir da realidade. Muito pelo contrário. Quando sonho, mantenho minhas raízes e minha razão não se perde.
Hoje, se quisesse, poderia e posso dizer que tenho três idades: 15 anos andando, 21 anos de lesão e 37 anos de vida intensa sem resumos ou qualificações por agora... Apenas vida!
Em todas estas idades disse que amava alguém apenas uma vez e este alguém é minha mãe. Hoje concluo que tenho poucas pessoas que realmente amo e não perderei tempo tentando esconder delas. Creio que elas sabem que as amo, mas queridos leitores e amigos, quero sentir a liberdade casual e intensa de exclamar o amor que faço agora prisioneiro de meu temor de adulto. Como podemos peder tempo assim?
Como é doce a liberdade das crianças!
Não pedirei desculpas pela complexidade deste texto, pois ele reflete a complexidade de meus dias, minha vida e paixões que vivi e finalmente volto a viver verdadeiramente.
Obrigado a quem leu até aqui e, AGORA, sinta-se livre assim como me sinto liberto!
Até a próxima!
Angelo Marcio.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Viver! Amar! Por que não tentar?

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Primeiramente quero pedir desculpas aos queridos e amigos do Uma Crônica Deficiente pela ausência, mas eu não esperava que minha vida fosse tão agitada como nos últimos quinze dias.

Antes de viajar e começar o diário de bordo deixei uma chácara reservada por final de semana inteiro para cumprir mais uma das etapas que eu havia proposto para minha vida, ou seja, dedicar-me mais aos estudos, à família e aos amigos. A primeira proposta já fora cumprida, porém não em sua plenitude, e as outras duas tiveram seu início oficial no final de semana passado, pois, na chácara, consegui reunir minha família e parte de meus grandes amigos.

A chegada à chácara deu-se à noite. Estava comigo parte da família e alguns amigos que, dentre eles, destaco uma doce moça que afirmo ser a mais bela, querida e agradável companhia.

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Enquanto meus irmãos e minha mãe jogavam baralho e cuidavam da parte de comidas eu ficava com os amigos a beira da piscina conversando e os vendo entrar naquela água supergelada. Momentos de risadas e pura vida descontraída. Perto da piscina conversamos sobre música, vida, estrelas e também tomamos um pouco de vinho até as três horas da manhã para depois nos recolhermos para dormir, ou melhor, tentar dormir, pois após deitar a doce companhia, um amigo e eu ficamos a conversar até o nascer do sol para que este pudesse ser fotografado e foi.

Amanheceu e fiquei o tempo quase todo a observar a família e os amigos se divertindo e por vezes lembrando que há três anos tentei fazer esta reunião sem sucesso. Lembro-me que na época do insucesso chorei muito, mas tinha consciência que um dia conseguiria.

Vi e convivi com aqueles que amo e afirmo que qualquer esforço para estar em convívio com tanto amor sempre valerá a pena, sempre será altamente frutífero.

Em dado momento, após o almoço, deitei-me em um colchão de ar sob a sombra das árvores para poder contemplar aquela efusão de felicidade deles e minha também.

Por alguns instantes tive a companhia da doce moça ao meu lado e falamos de quase tudo em poucos minutos. Também falamos de uma alegria que dividimos que era o fato de sua mãe estar deitada sob a sombra também a desfrutar da tranquilidade e descansar. Dessa vez o sorriso de felicidade foi duplo e compartilhamos de uma aparente tristeza: O dia estava chegando ao fim e precisaríamos ir para nossas casas, voltar para a realidade que compromete nossas horas e por vezes nos distancia até de quem mora sob o mesmo teto.

Em breve faremos outra reunião, pois, a passos lentos o que é natural e belo mastra-se. Correr? Quero apenas desfrutar com mansidão o pouco que posso ao lado dos que Amo.

Até a próxima!

Angelo Marcio.

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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Diário de bordo 6º dia

Há uma música bem antiga que diz assim em um de seus versos:

“Eu queria ter na vida, simplesmente, um lugar de mato verde pra plantar e pra colher. Ter uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela só pra ver o sol nascer.”

Peço desculpas por não creditar o autor ou cantor, mas este trecho, em específico, reflete um de meus desejos. Posso não ter plantado nem colhido, no entanto, o que estava ao meu alcance agarrei sem pudor. Agarrei dias de vida simples; agarrei a estadia na casa de minha tia e sua varanda, bem como terei novos quadros do nascer do sol na memória.

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Na vida simples passei horas deitado em uma rede sempre com o pensamento longe. Não fiz isso para fugir da realidade, fiz muito mais para perceber que somos donos de nossas realidades e as surpresas do caminho, de alguma forma, positiva ou negativa – cabe a nós definirmos – vai a cada rompante ou de súbito moldando nosso viver e a arte final, a obra prima, somente pode ser assinada por mim, ou melhor, por cada um de nós.

É muito fácil creditar a outros as nossas culpas e, infelizmente, muitos ainda alimentam também a descrença em si e não assumem a autoria de suas belas obras. Digo isso por conviver com pessoas que agem assim.

Dando continuidade ao pós-rede, fora os dias de cama, teve algo que perdi: Um jantar na casa de um primo na cidade de Montes Claros para, além de me deliciar com ótima comida goiana, ter a oportunidade de passar e fotografar o Rio Claro, pois foi ao passar sobre a ponte dele e não poder fotografá-lo que surgiu o blog Uma Crônica Deficiente. Fica para uma outra vez.

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Com minhas primas que tanto prezo e me ajudam, vimos um filme e, ainda à noite, após minha mãe chegar de Montes Claros, voltamos para Jussara com uma diferença: Voltamos pelo asfalto. Bem diferente da estrada de chão da ida e, ao mesmo tempo, sem histórias para contar, ou melhor, tem uma sim.

Assim que chegamos a Jussara, deixamos uma tia em sua casa e nos dirigimos para a frente da casa de nosso amigo que cedera o sinal de internet sem fio. Certamente ele já dormia e lá estávamos nós: meu primo, minha mãe e eu.

Era mais de meia-noite. Ao ligar o notebook meu primo apertou a buzina e pensei que algum vizinho viria ver quem ou o que era, se fosse o amigo tudo bem, mas se fosse outra pessoa teríamos que dar explicações e enquanto o arquivo era transferido também passou um carro de polícia e um grupo de cinco jovens que não sei o que faziam àquela hora da noite na rua.

Senti-me como um adolescente fazendo algo de errado. A diferença é que estava dentro do carro aquela que deveria me dar uma bronca e agora sorrio com esta história.

Aqui quero deixar bem claro que o dono do sinal de internet PERMITIU que eu usasse. De outro modo seria CRIME.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

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Diário de bordo 3º,4º e 5º dias

Nascer do Sol na fazenda
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Como as coisas podem mudar tanto em um prazo de 12 horas?!

Vamos às minhas explicações, ao menos.

Certamente poderia fazer uso do momento em que fiquei tetraplégico, no entanto, fato mais simples e sem controle aparente evitou que o Diário de Bordo fosse publicado por três dias seguidos. Fatos que muito envolvem minha condição física.

Como afirmara no post anterior, realmente estou na fazenda, mas prefiro narrar e assim será.

Na clara noite de terça-feira, com lua cheia e bela para amantes e poetas, fomos a uma vila próxima a Jussara para de lá nos direcionarmos para Santa Fé de Goiás. Ao sairmos da vila optamos por um caminho alternativo de estrada de chão e muita poeira.

Quando percebi, o caminho se tornou conhecido, pois eu havia passado por ele quando tinha apenas 12 anos de idade e havia passado a pé junto com outro, hoje falecido. A cabeça, a mente foi se inundando de recordações felizes, pois meu primo e eu tínhamos fugido para participarmos de uma festa em uma fazenda e, no caminho, passamos por um córrego de nome bem sugestivo: “Córrego da Onça”. Lembro-me que sentimos muito medo, pois a possibilidade de aparecer uma onça era bem real e quando passamos por ali era noite também.

Área do Córrego da Onça
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Hoje, de dentro do carro, ia lembrando cada curva, as matas, os lagos, as porteiras e tudo mais. Era como se revivesse tempos passados e, ao mesmo tempo, em um misto de alegria e consternação, sorria e tinha consciência das dificuldades de pisar e sentir aquele chão novamente. Ainda assim creio em um futuro próspero, pois luto, acredito em Deus e sempre escreverei aqui o que realmente penso, sinto e acredito.

Após este momento “flash back” chegamos à fazenda e a primeira coisa que fiz foi pedir para ser posto no banheiro. Isso foi feito por minha mãe e meu primo; um segurava por baixo dos braços, nas axilas, enquanto o outro segurava pelas pernas, por trás dos joelhos; confesso que é bem incômodo, mas vale a pena.

Antes de sair do banheiro avisei minha mãe que havia algo estranho comigo e mesmo depois de sair o mal-estar continuava. Minha mãe queria saber exatamente onde estava ruim, mas, para um tetraplégico cuja sensibilidade é restrita dos ombros para cima, ficou muito difícil responder.

No outro dia, pela manhã, descobrimos o que me afetava e era algo que alguns classificariam como dor-de-barriga, outros desinteria, mas eu prefiro colocar como uma leve infecção intestinal que me deixou dois dias de cama e minha mãe, claro, sem perder o bom humor, disse que se ganhasse dinheiro pela quantidade de roupas minhas que ela lavou, certamente ficaria rica. Não posso esquecer-me de dizer que fui tratado à base de chás naturais feitos por minha tia.

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Para mim é estranho descrever isto, mas é algo que aconteceu e que faz parte da aventura (na próxima trarei fraldas geriátricas... risadas).

Agora peço calma, pois não foi tão ruim assim. Pude conviver mais com três primas que sempre estão comigo e são responsáveis por momentos de risada e por muitas das fotos tiradas. Vi o maravilhoso nascer da lua e ouvi o som de alguns bichos silvestres e hoje, enquanto escrevo, posso respirar um ar puro, ver o sol dar cor à sequidão do cerrado; a minha direita há a estrada de acesso e neste instante ouço um belo dueto de pássaros-pretos e rolinhas regidos por um grilo.

Estou realmente FELIZ e minha mãezinha está fotografando.

Quanto ao sinal de internet?

Nada... Que bom!

Até a próxima!

Angelo Márcio.

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segunda-feira, 26 de julho de 2010

Diário de bordo 2º dia

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Este é o Custoso.

Ainda estou em Jussara, cidade do sudoeste goiano, perto de Mato Grosso, há 415 km de Brasília e, aparentemente, bem próxima do Sol. Digo isso por ser uma cidade muito quente com temperaturas quase sempre acima dos 32 graus.

É a mesma cidade do acidente e que também trás contentamento.

Nossa primeira aventura foi, em pleno domingo, tentar encontrar nesta pequena cidade um sinal de internet para que o Diário de Bordo pudesse ser publicado.

Primeiramente, com dois primos a ajudar-me, fomos de carro a um posto de gasolina onde nos deliciamos com pasteis e sucos. Sempre sem esquecer que buscávamos o tal sinal de internet. Os pasteis estavam ótimos, no entanto, teríamos que andar um pouco mais.

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Riacho Água Limpa

Saímos da cidade e fomos fotografar uma parte do riacho onde renasci. Atitude imprudente, pois paramos o carro à beira da estrada, em cima de uma ponte e que renderam boas fotos. Em nenhum momento desci do carro e pretendo descrever e demonstrar com fotos como se faz para me colocar dentro de um automóvel.

Continuamos nossa busca percorrendo as ruas da cidade até que meu primo ligou para um amigo e ele permitiu que utilizássemos o sinal da casa dele. Fomos rápido, pois a bateria estava quase no fim. Fim suficiente para conectar e publicar o Diário do primeiro dia.O que acabei de descrever pode parecer algo bobo para aqueles que somente se importam com grandes atos, fatos ou história. A grandiosidade desta história está nos sorrisos, no bate-papo, na convivência e, principalmente, na disponibilidade dos meus primos em ajudar-me em algo realmente corriqueiro: Encontrar um local com sinal de internet.

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Torre da Igreja Nossa Senhora de Fátima.

À noite andamos pela cidade e fomos a missa para depois ver o Brasil ser 9 vezes campeão da Liga mundial de Vôlei.

Os próximos dois ou três dias passarei em uma fazenda aos arredores da cidade de Santa Fé de Goiás e lá, meus amigos, devo encontrar de trator a bicicletas; de vacas a tucanos; de emas a cavalos; mas sinal de internet?

Veremos.

Até a próxima!

 

 

Angelo Márcio.

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domingo, 25 de julho de 2010

Diário de bordo 1º dia

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Ao acordar, ainda deitado, posso refletir com esta simples paisagem.

E não é que após a formatura e uma semana um tanto quanto entediante recebi um prêmio que posso afirmar ter sido inesperado.

Era uma sexta-feira bem fria. Minha concentração se voltava toda para os trabalhos com os jovens da igreja e também para uma reunião de família em meu aniversário no próximo mês. Reunião esta que tentei há três anos atrás e não consegui. Algo muito entristecedor.

Mas vamos ao prêmio.

Meu irmão Haia chegado de viajem do Tocantins e, possivelmente, iria para casa de meus avós no Goiás. Com isso entra em cena outro irmão e juntos decidem viajar no sábado pela manhã levando consigo minha mãe e eu, ou seja, tínhamos menos de dez horas para ajustar tudo, desde cadeira de rodas, materiais de cateterismo até as roupas, claro, e para deixar para trás o dia-a-dia da cidade grande.

Agora posso afirmar que estou na casa de meus queridos avós, com minha mãezinha, irmãos, primos, tios, gatos, periquitos e muita felicidade.

1 mangustao

Fruta da Bahia de nome Mangustão.

E, a partir de hoje, partilharei com vocês amigos e leitores, por meio de fotos e textos, o desfrutar deste prêmio amável.

Aqui se dá início ao meu diário de bordo.

 

Até a próxima!

Angelo Márcio.

domingo, 11 de julho de 2010

Um discurso

A aprovação no curso de TI já passara, faltava a formatura e com alegria aceitei o convite para ser o orador. Tive receio diante de um auditório lotado,mas aqui publico o texto de uma vitória com a qual espero abrir portas para outros deficientes que queiram lutar.

cronica form DISCURSO

“18 meses, LV, PHP, BD, SI. Envoltos em tempo e siglas, às vezes não percebemos alguns detalhes que vão além.

Por exemplo, não percebemos que para a maioria dos que hoje finaliza um ciclo houve dificuldades impostas pelo tempo e, porque não, também pela falta de tempo.

Sair de um trabalho de uma noite inteira, chegar no horário, sorrir e assumir que está desenvolvendo novas habilidades diante de tal barreira é puro estímulo.

Isso é vitória diária que não percebemos e por falar em percepções...

Não percebemos os olhares daqueles que tiveram o receio da reprovação.

Aqui se abre espaço para concretizar que o maior receio era o da reprovação pessoal. “Nadar e morrer na praia”? Não! Isso é o inconcebível.

Não percebemos que também havia medo.

Não percebemos que havia cumplicidade.

Não percebemos muito, mas hoje, celebramos juntos.

O que significa que afirmar que não percebemos agora seja errôneo.

Talvez, apenas tenhamos demorado em notar que o tempo passou e que cada um pôde vivenciar dias diferentes, problemas diferentes em soluções iguais que não fogem da palavra PERSEVERANÇA.

E somente os vitoriosos perseveram, lutam e também são teimosos ao extremo.

Cada um, quando decidiu estudar, aperfeiçoar ou simplesmente ter conhecimentos a mais, também projetou algo para o depois- o pós-curso.

Certamente pode-se dizer que muitos planos mudaram no decorrer dos dias e no avanço do conhecimento e não percebemos que nos tornamos mais maduros, flexíveis e conscientes que, independentemente de idades, nos tornamos mais humanos em um universo de máquinas.

“Ninguém nasce sabendo”!

Muitos aqui presentes já devem ter ouvido isso de seus pais ou dito isto, exatamente, por serem pais.

Hoje, noite de celebração, pode-se afirmar e modificar esta máxima e dizer para os que desistiram ou foram obrigados a desistir e para vocês, vitoriosos do curso de Técnico em Informática, que, já que ninguém nasce sabendo e nestes três semestres muito aprendemos, peço permissão a Drummond que afirmou que “o tempo não passa” e que cada dia é um “nascer toda hora” para dizer:

_O conhecimento é um tesouro, sendo assim, estou diante de milionários.

No entanto, para finalizar, repito para todos o que foi dito por um marido em apoio a sua esposa que hoje está aqui conosco: Valorize seu curso!

Parabéns a todos e continuem. Não parem por aqui!”

Até a próxima!

Angelo Márcio.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Dia de vitória

cronica deficiente proj fim Manhã fria após noite mal dormida, porém com bons sonhos. Na televisão o jornal anunciava as primeiras notícias do dia e também trazia as primeiras imagens da neblina fria como cartão de visitas do Planalto Central.

Minha mãe já cuidava de mim e preparava o café da manhã. Tudo ao mesmo tempo, pois seu filho tinha de estar bem vestido para o dia de apresentação do Projeto Final do Curso de Técnico em Informática. Algo importante para mim e para ela.

Assim que estava devidamente arrumado, dois amigos vieram me buscar e começamos nossa caminhada de vinte minutos até a escola técnica. No caminho íamos lembrando que estávamos prestes a terminar ou cumprir uma meta proposta que havia começado há dezoito meses. O ritual da caminhada se repetia, porém com ânimo diferente. Íamos enfrentar a banca examinadora.

Ao chegarmos à escola encontramos outros que partilhavam da mesma ansiedade e pudemos sorrir juntos, tremendo de frio e, porque não, de certo temor também, que para piorar, teve o auxílio de nosso professor orientador a nos assustar perguntando se estávamos preparados para a guerra com muito bom humor.

Eu digo que realmente estava nervoso, pois mesmo concluindo as matérias, havia perdido muita aula importante.

Levei um resumo do que deveria falar na apresentação, mas não conseguia ler e para aumentar a tensão o professor pediu para que apresentássemos primeiro e fomos para o auditório que só tem escadas e os mesmos amigos tiveram que me carregar. Aí o medo aumentou. Tenho trauma de escadas.

Apresentamos o projeto com muitos questionamentos da banca e logo depois eles saíram para deliberar. Mais nervosismo e, para não esquecer, tinha a escada para retornar.

O frio na barriga aumentava quando o professor retornou com a ótima notícia de que nosso projeto havia sido aprovado, que precisaríamos ajustar algumas coisas na documentação, mas que já podíamos nos preparar para a formatura. Fomos aprovados!

Agora uma breve reflexão:

Eu quis escrever este texto assim, direto, explicativo e sem reflexões exatamente para descrever a simplicidade e exuberância desta manhã vitoriosa.

Para muitos um curso técnico é somente mais um curso, no entanto, para mim que tenho consciência das dificuldades enfrentadas junto com este caro amigo que me conduzia de segunda a sexta, este curso fora de importância ímpar pelo aprendizado e amizades feitas, pela descoberta de professores incentivadores e, principalmente pela vitória pessoal.

Quanto às escadas?

Perdoem-me os mais críticos, mas hoje quero esquecê-las.

Não sou incapaz, tenho apenas limitações.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Dia de visita

vigilia sjo 2010 (7) Antes e depois do acidente que me levou a uma vida de limitações nada agradáveis e também de vitórias antes  inimagináveis, sempre apreciei celebrar a vida com aqueles que amo. E hoje não foi diferente! Foi mais uma feliz celebração.

Aqui preciso dizer que nós nos inundamos de afazeres que em nosso cotidiano servem, unicamente, como desculpas para aumentar distâncias que deveríamos, todos os dias, tentar encurtar.

Refiro-me à distância entre pessoas, entre amigos, entre familiares, entre quem bem queremos.

É inconcebível querer estar distante de quem se quer bem, de quem se ama.

Eu, muitas vezes, erroneamente, somo a enxurrada de afazeres à condição de tetraplégico para conjugar e trazer à ação o verbo distanciar e não é isso o que realmente quero, pois apesar de necessitar de alguém para me conduzir com a cadeira, gosto de visitar amigos –pessoas amadas – e tenho consciência que há aqueles com limitações muito maiores que as minhas. Limitações físicas ou não.

Mas se alguém pode mexer um braço, estaria ela impedida de um gesto de carinho?

Digo-lhes que em minha estadia hospitalar conheci pessoas em pior estado do que o meu e que, mesmo assim, sorriam, celebravam a vida de forma contagiante e foram mestres.

Mas hoje não!

Hoje ocorreu o inverso!

Ao ser visitado por alguém a quem quero muito bem a distancia dissipou-se e deu lugar a sorrisos, seriedade e felicidade por companhia tão agradável e amável. O vazio que eu criara com a enfermidade – gripe - e estudos a se completarem fora sendo preenchido pelo carinho e especialidade de uma simples visita que, por ser simples, importante tornou-se e me mostrou que preciso sair mais, admirar mais o que quer que seja e, por fim, amar mais.

Era dia de jogo de futebol... jogo que nem vi.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Uma outra volta às aulas

cronica deficiente fenix Caros, leitores e amigos, é com alegria que volto a escrever. Realmente a gripe me foi muito prejudicial e, por mais que não queira admitir, com ela percebi ainda mais o quanto estou debilitado após 21 anos de lesão. A fragilidade do corpo entra em conflito com as vontades da mente e admitir fraqueza pode ser grande virtude.

Respiração tranquila após dias de tensa gripe que impediam a ida para a cadeira.

Agora posso voltar às aulas de Técnico em Informática com liberdade e corrida para não reprovar, pois este é o último semestre.

No post “Volta às aulas”, tive a oportunidade de relatar, descrever situações bem constrangedoras quanto à inclusão e minha vontade de estudar, agora, posso alegremente relatar o oposto, relatar o quanto os professores e coordenação de onde estudo foram compreensíveis e solidários comigo.

Quando percebi que demoraria um pouco mais para me recuperar escrevi aos meus professores explicando exatamente como eu estava e até por conhecê-los sabia que me ajudariam. Foram muitas faltas que levaram a perda importante de conteúdo, mas teve uma recepção de professor que resumo para todos.

No dia em que retornei, os companheiros de sala foram muito receptíveis e incentivavam minha permanência. Logo após esta aula fui conversar com um dos professores sobre como repor o tempo, a matéria perdida e ele primeiro me abraçou e perguntou se eu realmente estava bem. Diante de resposta afirmativa, ele – professor – apenas me disse para não me preocupar, que compreendia o que havia ocorrido e que eu seria ajudado.

Essas atitudes vieram de pessoas cuja preocupação com o ensino se mostrou exemplar. Não por ser comigo. Não por eu ser deficiente e sim por eu ser plenamente capaz.

Os dias não serão fáceis até a formatura, mas... Se forem fáceis não será conquista, será passatempo e meu tempo é precioso; o tempo de meu amigo que me leva todos os dias para a escola também é precioso, assim como precioso é o tempo que minha mãe dispõe para acordar cedo e deixar-me pronto para estudar e, para finalizar, enalteço a preciosidade do tempo dos verdadeiros mestres.

Assim agradeço aos professores da Escola Técnica de Ceilândia DF.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

sábado, 29 de maio de 2010

Partilha social

Croicadeficiente social As amizades construídas, bem como as mantidas antes e após meu acidente têm importância sempre extraordinária, pois conduzem meus dias para além da companhia dessas pessoas que amo e alavancam minha vida direcionando-a para ações que nunca imaginei executar.

Ação demonstra mobilidade e mobilidade é o que mais falta em um deficiente.

Vou deixar de tanta introdução e ir direto ao assunto.

Fui convidado por um grande amigo paraplégico, que é uma das pessoas mais corajosas que conheço, a ajudá-lo com um trabalho social junto a jovens de escola pública, com apoio da direção, claro, e em conjunto com outros padrinhos e madrinhas de turmas com as quais poderão conversar, conhecer e ajudar conforme as necessidades.. Ah! É assim que nos chamam: padrinhos ou madrinhas.

A escola sofre de um mal crônico que afeta a maioria das instituições de ensino das periferias brasileiras: A descrença na juventude e da juventude em si e em suas capacidades dando ares nebulosos à sua visão de futuro e transfigurando sonhos em pesadelos.

Mas podemos observar um princípio de mudança, pois a proposta partiu da própria diretora que acredita e quer melhorias sociais e afetivas para os estudantes.

Devido à gripe maldosa que ainda me assola, não pude acompanhar meu amigo em seu primeiro contato com esses alunos, mas, assim que o fizer descreverei para vocês, amigos e leitores, o desenrolar de mais este desafio.

Ao ser convidado para este valioso trabalho posso dizer que não pensei duas vezes para aceitar. Sim, somos limitados fisicamente, mas ao sermos convidados, meu amigo e eu, em momento algum houve dúvidas ou avaliações quanto a nossa condição de deficiente.

O que quero dizer com isso?

Quero reafirmar que todos são capazes de realizar ações importantes, independente de condições físicas, mas sendo coerentes, sendo realistas e, sobretudo, assumindo a condição de desafiadores de limites para assim saber com propriedade até onde se pode chegar.

Será que é possível saber?

Até a próxima!

Angelo Márcio.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Gripe X Tetraplégico

CRonica deficiente gripe Inimiga feroz de qualquer um, mas ela, a gripe, parece ter uma mira à espera específica das fragilidades de um  tetraplégico. Com ela a palavra misericórdia é inexistente e substituída por expressões como: Sofra! Espirre! Tenha febre! Bem que poderia ser tenha fé, mas não, este vírus mutante e sem combatentes eficazes somente pode ser vencido pelo cansaço e cansa mesmo. Sem contar a canja de galinha.

Imagino, com medo, se uma gripe comum causa estragos o que me dirão o pavor diante do zoológico a surgir como sobrenome, é: suína, franco e nem quero saber de outros.

A maioria dos tetraplégicos tem em comum, dentre outras coisas, um frio ou calor intenso e uma dificuldade respiratória incômoda causados pela altura da lesão ou por uso da invasiva traqueotomia. Um tubo inserido em um buraco no pescoço, em um local que muitos chamam de “gogó”, para ventilar e permitir, ou melhor, induzir e melhorar a pouca respiração. Descrevo assim, meio reticente e temeroso porque não cheguei a necessitar de traqueotomia.

Meu maior temor quanto aos sintomas ou males da gripe é a tosse exatamente pela pouca ventilação pulmonar, pois... Tentarei explicar melhor assim:

Minha respiração é completamente “diafragmática” e o diafragma é muito exigido. Para perceberem este tipo de respiração que todos temos basta observar uma criancinha dormindo, pois poderão ver sua barriguinha subindo e descendo ou um cantor quando aparece o mesmo e não uma expansão visível dos pulmões. Como não sou criancinha mais – que pena – e, nem cantor para alívio dos ouvidos mais próximos, espero ter me saído bem.

Quando deitado, a própria força da gravidade ajuda a pesar sobre o músculo fazendo com que o ar saia com mais força e leve consigo as secreções causadas pela tosse, no entanto isso ainda pode ser pouco e nós, tetraplégicos, podemos precisar de uma mãozinha. Essa mãozinha se dá por meio de uma pequena pressão sobre o diafragma e tem horas em que até parece massagem cardíaca. Minha mãe já é craque, porém espero demorar muito a fazer uso desta massagem em minhas terapias.

Quando sentado a maldade da gripe faz par com a debilidade vinda com a lesão e o dueto canta e dança. Enquanto acontece esta festa um tetra sofre e muito. Sentado a pressão sobre o diafragma diminui consideravelmente e o ato de tossir se torna ato heróico. Muitas vezes respiro fundo e lanço minha mais forte tosse e tem gente que nem ouve. Imaginem a força! Mas o pior ainda está por vir. Por estar sentado e sem força para tossir a secreção pulmonar vai aumentando até o ato de respirar passar a inspirar um pouquinho de oxigênio e é algo agonizante. Se chegar a este ponto o melhor a fazer é manter a calma, já que para gritar por socorro precisa-se de muito ar, deitar ou por o tronco para frente para ventilar e sair da agonia.

É assim que ocorre comigo. O que não posso afirmar é que todos os tetraplégicos passam por isso. Realmente espero que não.

Agora uma “ironia do destino” que, com a licença de vocês, chamo de sacanagem mesmo.

Todo ano tomo a vacina para a gripe sazonal e já havia uns sete anos que gripe tão forte não me acometia.

Pois bem, numa segunda-feira começou a campanha de vacinação e na manhã seguinte, terça-feira, eu estava completamente gripado sem poder ir para a escola e honrar compromissos.

Não é sacanagem? (risadas) E fujam da gripe, tetras e não tetras, se puderem!

Até a próxima!

Angelo Márcio.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Curiosidades

Cronica deficiente curiosidade Estranho! Não existe a palavra tetraplegia no respeitadíssimo dicionário Aurélio. O que trouxe ainda mais curiosidade sobre esta palavra que, por vezes, lembra número de títulos ganhos em esportes como tetracampeão, tetrarecordista (essa eu inventei), mas chegou a dar coceiras e fui no Houaiss e nada encontrei. Até que cheguei ao Michaelis e, depois de até nutrir dúvidas, encontrei a palavra tetraplegia com o seguinte significado: “sf (tetra+plego+ia) Med Paralisia de todos os quatro membros, quadriplegia”.

Após toda esta busca, significado tão conciso e pouco explicativo deixou-me um tanto quanto decepcionado, pois sim, há a paralisia, no entanto ela não precisa ser completa. Qualquer falta de movimentos nos quatro membros pode ser considerado tetraplegia, pois de alguma forma os sinais nervosos emitidos para aqueles membros, após passarem pela coluna vertebral, estão sendo bloqueados por alguma lesão.

Não sou médico. Bem que gostaria de ser. E por não ser é que previno para não utilizarem os conceitos aqui como verdades científicas. Será mais prudente manter a inevitável licença poética e curiosidade que hoje é implacável.

Bem. Encontrei o que buscava e não foi o suficiente.

Quando li a separação silábica desta forma: “tetra+plego+ia” que me parece latim, passei de buscar significados, até por saber na pele, ossos e um pouco a mais, a buscar a etimologia desta palavra de som agradável: te-tra-ple-gi-a.

O prefixo “tetra” foi bem fácil, pois faz relação direta com o número quatro e são quatro os membros afetados. Foi necessário dar um salto para o sufixo “ia” que é muito utilizado na composição de palavras relacionadas com a ciência, por exemplo.

Por que saltar o meio? Por que saltar o que no dicionário Michaelis fora descrito como “plego”?

Porque neste meio de substantivo que, por vezes, torna-se adjetivo. Sim! Uma qualidade em meio à observância de tantos defeitos, fiquei imobilizado, estático por não encontrar o significado, literalmente paralisado e sem opções momentâneas. O que não quer dizer que desistirei aqui. Apenas beberei de outras fontes para saciar esta sede de conhecimento, pois escrevia este texto, pesquisava ao mesmo tempo e um dia escreverei aqui, mesmo em nota curta, tudo o que descobrir.

Nestes 21 anos de lesão assumo que nunca tentei encontrar os significados literais de muitas palavras novas que começaram a me acompanhar desde o início desta nova vida, desde o dia do acidente, mas sempre, por formação, pesquiso quase tudo o que traga curiosidade e peço para que os jovens com quem trabalho em uma comunidade católica procurem fazer o mesmo com as questões que à eles pertençam. Não custa nada e há ainda aqueles que optam pela ignorância por acharem o conhecimento demasiado pesado.

Ao falar de adjetivos ou qualidades uma realidade muito vista veio à mente ao pensar que somos seres fisicamente perfeitos imperfeitamente instruídos a enaltecer primeiro os defeitos ou erros para depois, bem depois, darmos notas curtas quanto às qualidades ou acertos.

Um homem pode cometer mil erros e seu nome será eternizado quando cometer o primeiro acerto.

Outro homem pode cometer mil acertos e seu nome será eternizado quando cometer seu primeiro erro.

Salvo as exceções, será que realmente é assim ou estou exagerando?

Até a próxima!

Angelo Márcio.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Vivendo e aprendendo

pare Sempre tive o hábito de ficar no portão de casa a observar a rua e o que nela acontecia. Via as crianças a andarem de bicicleta, brincar de bola, como realmente devem agir as crianças. Também via os adultos. Alguns também a brincar e outros a voltarem de suas jornadas de trabalho. Eles sempre me cumprimentavam e hoje também.

Porém, um dia, algo estranho aconteceu. Ao menos foi estranho para mim.

Era tarde de outono, eu no portão, meu pai sentado na área de casa em uma cadeira com forro de pano, nosso cachorro em sua casinha a olhar-me e, sem que eu percebesse um homem se aproximou. Ele tinha em mãos uma nota – dinheiro – que hoje equivaleria a algo como cinco reais, dois dólares talvez..

Bem. Eu não tive tempo de reagir, ou melhor, sequer eu soube como reagir.

Certamente aquele homem não teve a intenção de me ofender e nem deu tempo de eu pensar se era ofensa ou não em meus julgamentos, pois por mais que eu seja esclarecido, às vezes racional até demais, naquele momento, naquele breve momento, senti-me absolutamente sem saber o que fazer ou dizer. Perdi as armas e se, como afirmou o bom velho Newton que “toda ação requer uma reação de igual intensidade”, neste caso não se aplicou. Não posso esquecer que é uma lei da física e não de relações sociais.

É chato pensar que alguns membros da sociedade julgam os deficientes tão incapazes ao ponto de aliar deficientes com pedintes exatamente por erroneamente pensarem, de forma generalista, que os deficientes nada podem fazer em favor da sociedade, pois, mais uma vez erroneamente, julgam que a única contribuição coerente é a financeira.

E a Vida? E o Intelecto?

Aqui quero dizer que não estou julgando os pedintes. Mesmo aqueles que nos enganam, pois como eu já dissera antes cada um vive sua vida conforme quer ou conforme as situações que lhe são impostas e o fato de um homem me dar esmola me fez pensar e sentir o quanto a dignidade humana é ferida; o quanto deve sofrer um pai que se vê obrigado a pedir um pão para não comer e oferecer aos filhos depois de ter sido execrado por aqueles que se julgam socialmente justos.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Às Mães

Flor by Renata Barbosa É tarefa árdua adjetivar pessoas tão próximas de humanidade perfeita. As MÃES.

Se o mundo inteiro tomasse a decisão difícil de parar com os trabalhos, cursos, estudos e olhos grudados nas televisões e suas histórias fictícias seria presenteado com uma aula de vida e AMOR ministrada por mestres maternos com formação rica e especial. As MÃES.

Não há como distanciar MÃE de AMOR e se há alguma que foge do padrão. Exatamente! Por mais que a diversidade impere as vitoriosas MÃES seguem um padrão que se insere no AMOR, essas também não estão distantes deste AMOR.

Sabe, queridos leitores, hoje não quero me preocupar com regras de português ou redundâncias, quero permitir liberdade às mãos, usar frases feitas... Será que ainda é possível criar novas frases de AMOR para as MÃES? Este seria o concurso mais difícil para a humanidade: Crie uma frase nova de AMOR às MÃES.

“O AMOR é fogo que arde sem se ver; é ferida que dói e não se sente; é um contentamento descontente; é dor que desatina sem doer”. Será que Camões escreveu pensando nas MÃES? Quem poderá saber?

Um dia, há anos atrás, um velho amigo estava a palestrar sobre família e, com voz suave, pediu para que os presentes fechassem seus olhos. Naquele instante de silêncio percebi que se configurava um momento para as MÃES. E acertei. A lembrança mais concreta foi quando ele pediu para que imaginássemos o rosto de nossas MÃES; Para que aproximássemos imagem tão viva e acalentadora ao ponto de olharmos nos e os olhos de nossas MÃES; depois pediu para que percebêssemos as rugas localizadas ao lado dos olhos delas com a seguinte questão: _Por quantas destas rugas sou responsável?

Esta questão e reflexão até hoje me perseguem. Não com culpa. Aprendi a olhar para minha MÃE – nos olhos – e por eles tentar desvendar alguns segredos. Isso mesmo! Tentar a missão impossível de desvendar, descobrir, não algo a mais, mas algumas das coisas que AMORosamente as MÃES escondem para não sofrermos ou sermos afligidos por temores temporais.

Outro dia ouvi no meio de uma música do Renato Russo, ele gritar: _”Quem AMA não pode sofrer!” E pensei assim: Sendo o AMOR um algo desconhecido e ao mesmo tempo reconhecidamente perfeito, reitero o início ao afirmar que MÃES são os seres mais humanos na essência da perfeição que é o AMOR.

Elas não são nem as rosas ou perfumes líquidos, são o frescor aromatizado que fica no ar e é perceptível em breves suspiros por intermináveis momentos.

Agora, com olhos repletos de lágrimas, relembro o dia em que disse pela primeira vez, que AMAVA minha mãe. Fora um dia...*

Perdoem-me! Já não consigo mais escrever.

Perdoem-me! Ainda estou aprendendo a amar!

_Mãe, eu te amo!

_Mães, nós amamos vocês!

Até a próxima!

Angelo Márcio.

*Por favor, leiam o post UTI que entenderão porque parei o texto tão repentinamente.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Algumas quedas

cronica deficiente queda1 Se alguém, em algum momento, ao ter lido o título deste texto pensou que eu fosse usar tombos metaforicamente para aludir às derrotas da vida, digo com sorriso de canto de boca que se enganou completamente. Serei literal.

Em um sábado destes da vida, alguns amigos e eu, sendo dois tetraplégicos, fomos a um tradicional “chá-de-panela”, que nada mais é do que uma reunião de família e amigos com presentes para o enxoval dos noivos e este tinha especialidade por ser de uma amada afilhada. Confesso que até hoje não sei por que usar a palavra “chá”. É chá-de-panela, de bebê, de fralda, mas eu ainda prefiro um bom e tradicional chá verde.

Durante o trajeto – a pé – ao descermos da calçada para o asfalto vi meu amigo tombar com sua cadeira e ficar com o rosto no chão. Felizmente ele não sofreu nada além do susto, mas passado isto começamos a fazer piadas com o ocorrido pelo simples fato de estarmos entre amigos.

O que me ocorre agora é mais um despreparo das pessoas dos órgãos competentes que devem ter pensado assim:

_ Já que este é um local um tanto quanto isolado, para que rebaixar a guia?

E vem mais. Paro e penso que os deficientes são limitados e isto é fato, mas, a cada dia, por mais que não queiramos, as estruturas físicas das cidades nos limitam muito mais. Parecemos com aqueles ratinhos de laboratório que ficam presos e os cientistas decidem para onde e por onde eles vão.

Imagino os “competentes” em uma sala ampla, mesa ao centro com cadeiras reclináveis para conforto em “duras” horas de trabalho e muito raciocínio, com um mapa da cidade, que normalmente não conhecem, olhando e decidindo se fazem rampas ou não; se melhoram a sinalização ou não e, por fim, após este trabalho árduo olharem entre si e ainda adiarem as conclusões por necessitarem de maior estudo.

Será pensamento irônico meu ou um pesadelo real? Loucura?!

Dentro da realidade, agora contarei uma de minhas quedas.

Fui convidado por freiras que administravam uma escola para, junto com elas, organizar um show com bandas ao vivo. Após muito trabalho, reuniões, busca de patrocínios, aluguel de palco e etc, vimos tudo correr bem e obtivemos lucro para a escola.

Ao sair do local do show, por volta das 2 horas da manhã, vi uma escada. Vi a barreira arquitetônica que mais tenho medo e agora saberão por quê.

Porque quando chegamos, eu e o amigo que me conduzia, próximo à escada, meu amigo virou a cadeira para subir de costas, com as rodinhas da frente levantadas. Já no primeiro degrau uma das freiras, em tom de brincadeira, perguntou se eu tinha seguro de vida. A resposta foi negativa. No último degrau ela retornou com a pergunta e obteve a mesma resposta.

Após vencermos o último degrau, meu amigo começou a virar a cadeira para continuarmos o caminho de frente. Foi aí que a coisa ficou feia. Esquecemos que após a escada havia uma pequena plataforma de concreto de uns dois metros de largura sobre um buraco que se estendia por toda a frente da escola. Para melhor visualizar, por favor, imagine um fosso de castelo medieval com sua ponte levadiça baixada e nós, pobres plebeus, sobre o ponte.

Antes de terminar o giro lembrei que a plataforma era estreita, porém tarde demais. A roda esquerda já havia perdido sustentação; meu amigo já havia perdido sustentação e os dois foram buraco abaixo. Ainda bem que não havia jacarés e creio que aqui Isaac Newton explicaria bem sua teoria.

Meus amigos leitores eu bati forte com a têmpora esquerda no chão e lhes digo: _ Eu vi a luz! (Hoje posso rir disso)

Mas logo depois percebi que tudo estava de lado e como a terra não mudaria seu eixo à toa, constatei que havia sofrido uma queda mesmo. Minha primeira reação foi mexer meu braço para confirmar a continuidade de meus poucos movimentos, saber como meu amigo estava e, é claro, pedir ajuda.

Rapidamente outros amigos vieram e efetuaram o resgate com minha orientação de como me segurar, remontar a cadeira em local SEGURO, transferir-me do chão, buraco ou fosso para ela e assim ir para casa.

Nesta queda em nada me feri. Já meu amigo, machucou-se um pouco. Machucou-se mais tentando me segurar, proteger-me, do que devido a queda propriamente dita.

Hoje, repito, conseguimos rir deste episódio com frequência, não por sermos sarcásticos, como assim julga uma minoria. Temos e fazemos a possibilidade de sorrir por sermos/termos amigos e felicidade transbordante.

SORRIAM TAMBÉM!

Até a próxima!

Angelo Márcio.

cronica deficiente queda

sábado, 17 de abril de 2010

Um grito de dor

cronica deficiente vergonha Certamente influenciado pelos desabafos do Eduardo e seus amigos no blog Tetraplégicos, no post Desabafos…, e somando a fatos do cotidiano que em nada agradam, vi-me diante de limitações impostas e que feriram.

Tenho absoluta convicção de meus limites e, portanto, também dos consequentes esquecimentos, porém, às vezes, esqueço que sou deficiente e conduzo minha vida normalmente, pois cada um tem sua normalidade de vida conforme suas escolhas e o que lhe é imposto também.

Se fôssemos todos iguais seria uma vida normatizada, com regras iguais e, meus caros, na vida, a desigualdade vigora com poderosa força.

Um exemplo simples, concreto, real e desigual é saber que pessoas próximas ou não vão realizar alguma coisa, ato, sei lá... e você – neste caso eu – sabe que não pode participar exatamente pela limitação física.

A sensação de impotência é cruel.

Até se conseguisse ir, normalmente fico só por vários momentos, pois ninguém tem a obrigação de me ladear o tempo todo e isso se torna mais cruel do que não ir, já que estou no local e não posso conviver, de pertinho, aquele momento. Também posso estar errado. Será?

Agora a impotência regida pelos fatos faz parceria com a consciência de saber que, naquele momento, sinto-me incapaz; com vontade de gritar e sei que um dia porei para fora em alta voz. Por exemplo, para sair de casa mobilizo, no mínimo, 5 pessoas. Sei que todos ajudam por que querem. Mas pergunto: _E se não quiserem? Ou melhor, e quando não quiserem?

Sei que não me afundarei em depressão, mas... Por que não chorar?

Tenho uma personalidade de intensa luta e a pior derrota, das que tive, foi obtida tendo minha pessoa e suas limitações como adversárias e, como já afirmei que – ainda bem – somos todos diferentes; sei que minha forma de expressão pode parecer não tão direta, no entanto e felizmente, é para ser assim.

Há muito tempo atrás era fácil ter um grupo de pessoas ao meu redor com elogios, sorrisos e uma companhia agradável. Pouco a pouco fui percebendo que aquele não era eu, verdadeiramente falando. Não estava a enganar ninguém com a atitude de tentar agradá-los. “Doce” erro… Neste erro o grande enganado era eu! Sim! Outro erro! Enganar a si mesmo.

Erro corrigido a tempo.

Creio que depois que comecei a agir e falar como eu queria e não por convenções, muitos se dispersaram como poeira ao vento, deixando para trás, ou melhor, comigo, aqueles que confiavam, conheciam e se compadeciam com minha dor.

Assim me senti liberto e feliz.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Muito mais que amigos

quadra-de-volei Há dias venho relutando quanto ao fato de escrever sobre meu pai. São histórias que relatei diversas vezes em palestras, no entanto, encontro um bloqueio aqui. Uma parede erguida por mim.

Sendo assim escreverei, como já fora comentado, com um coração tranquilo e suas decisões. E o que me vem agora à mente são meus amigos.

Claramente lembro que após a saída do hospital, após 18 meses de internação e consequente institucionalização, eu tinha receio de sair até a rua, mas não adiantava muito esta insensata teimosia. Meus amigos vinham até minha casa, pediam a minha mãe que me arrumasse e sem perguntarem minha opinião levavam-me para uma das coisas que mais gosto: jogo de vôlei.

A rede estava armada no meio da rua mesmo, de um lado presa a um poste e de outro a um muro; as guias ou meios-fios serviam de linha lateral e as linhas de fundo, meio e 3 metros foram cuidadosamente pintadas em cor laranja, com espessura de cinco centímetros.

Fui posto, então, na lateral, abaixo da rede para ser o juiz. Eles, meus amigos, queriam que eu usasse o conhecimento adquirido no período de atleta para apitar o jogo, mas foi além, muito mais além que poderia imaginar. Eu apitava, sorria e, muitas vezes, dava dicas de jogo.

É evidente que agora me lembro de meu período de atleta – levantador – e creio que a prática esportiva ajudou, e muito, em minha recuperação até onde foi possível.

Eles me perguntavam qual a melhor forma de atacar ou levantar; se era bola curta, longa, chutada, meia bola, linha dos três, dois tempos e outros palavreados dignos deste esporte.

Mal sabiam eles, eu acho, que estavam me recolocando dentro de um estado de felicidade sem igual, pois mesmo sem poder jogar eu estava dentro do jogo e me sentia atleta novamente.

Meio contundido, mas atleta. (risadas)

Se biblicamente, ou não, pode-se afirmar que “quem tem um amigo tem um tesouro”, dou maior amplitude à afirmação dizendo que, simplesmente, sou um milionário.

Alguém vive sem amigos? Ou sobrevive?

Estes amigos que amavelmente chamo de “loucos” são até hoje parte extremamente importante de minha nova vida.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Dia de paz

cronica deficiente paz Ainda era manhã quando adentramos por uma vereda ladeada por cerrado, capim, árvores e alguns animais para sustento da família. Um pouco mais adiante a casa pôde ser vista.

Ali seria meu refúgio por algum tempo.

Então me vi deitado em uma rede presa às vigotas do teto por cordas cuidadosamente amarradas. Senti-me bem!

Poderia até contar as telhas daquela varanda, mas este não era o objetivo e nem por hora seria. O vento fazia das folhas de palmeira bailarinas num dançar que de diverso parecia uniforme e belo. E também tinha música! Isso! Havia música para ouvidos atentos e, por que não, também para os desatentos.

Os trovões rompiam o silêncio proposto como o rufar de tambores em clássica música. Por fim veio a chuva e até os pássaros silenciaram diante de ópera tão perfeita.

Eu não queria estar em outro lugar!

É incrível o quanto nossos sentidos ficam aguçados quando estamos em paz e, erroneamente, buscamos, por vezes, a turbulência do conflito e seus ferimentos mútuos.

E durante esta sinfonia já anunciada, por mais louca que possa parecer ser minha decisão, confesso que quis ouvir músicas que eu já havia separado em um dispositivo eletrônico.

Mas repito quantas vezes for preciso: _ Eu estava em paz!

E com fones no ouvido, ópera natural e músicas atentamente selecionadas para aquele momento, adormeci.

Dormi como há dias não dormia e acordei bem mais feliz ao som de crianças brincando em um riacho próximo.

Poderia ser melhor?

Até a próxima!

Angelo Márcio.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Vocês precisam saber

Cronica deficiente by Renata Caríssimos leitores e amigos do Uma Crônica Deficiente,

Nos últimos dias estive impossibilitado de atualizar o blog com novos textos. Neste período os estudos e trabalhos com jovens me mostraram o quão carente de tempo estou.

Aqui posso externar que no início deste ano lancei como desafio me dedicar mais à família, em particular minha mãe, e também aos meus amigos, pois o corre-corre dos dias estava tomando mais tempo do que o necessário, que o devido. Estava, literalmente, roubando-me vida. E me vi envolto em diversas atividades que formavam barreiras e mantinha os que amo a distâncias incoerentes com minha decisão.

Sendo assim, resolvi dar pleno cumprimento aos novos desafios e, para começar, viajarei com minha mãezinha e digo a vocês:

- Nem de longe pensem que abandonarei o blog e enfatizo que a alegria, críticas e brincadeiras dos textos continuarão.

A todos os leitores e amigos um grande abraço.

Atenciosamente, ou melhor, até a próxima!

Angelo Márcio.

terça-feira, 16 de março de 2010

Volta às aulas

baskara_cron_def Não! Não irei adentrar nas incríveis conclusões e desenrolar das ciências biológicas e sim em acontecimentos – desafios – que me colocaram diante de preconceitos de uma ínfima parcela de professores.

Quando voltei a estudar, após vencer algumas barreiras particulares erguidas, dois momentos específicos demonstraram a falta de preparo e, porque não, também a ignorância de alguns mestres diante do inusitado: Um tetraplégico que não consegue escrever e que volta a estudar.

Para chegar até a escola eu era conduzido por um de meus irmãos pelas ruas mal conservadas, com seus quebra-molas fora de padrões e sempre uma distância que para ser percorrida levava cerca de 30 a 40 minutos de caminhada. Mas havia um objetivo e em certos trechos do caminho éramos obrigados a andar em chão puro. Era poeira ou lama, sem meio termo.

Na primeira avaliação – Matemática – senti-me constrangido por não ter uma forma de teste em que eu mesmo, com minhas dificuldades e adaptações necessárias, tivesse condições de responder às questões. Propus a professora que meu irmão escrevesse por mim, mas seu medo de que meu irmão me ajudasse além de escrever levou-a a não permitir e me vi com uma figura repressora a usar a caneta em meu lugar.

Digo repressora e acrescento preconceituosa porque em momento algum, durante as aulas, ela teve a preocupação de observar que eu tinha facilidade com a matéria e, principalmente, saber que em minha formação o ato de colar, trapacear não faz parte de minha personalidade, mas para saber disso seria necessário um contato mais particular. O que certamente ali não haveria.

Que tal esta equação? Falta de diálogo resulta em ignorância e leva ao preconceito.

AVISO:

Para aqueles que não gostam muito de matemática, o parágrafo abaixo será meio estranho. Será?

Eu tinha um papel diante de mim com equações do segundo grau e a fórmula de Baskara que até hoje conheço e, sem poder fazer rascunhos, pedia para que a professora escrevesse o que eu pedia. Eu queria resolver a equação sem desmembrar a fórmula e ela queria me obrigar a não fazer assim, pois havia ensinado os outros alunos com a fórmula dividida em duas. Tinha momentos em que ela começava a escrever de um outro jeito para me induzir e eu era obrigado a insistir que não estava errado.

Parecia que o tempo todo ela estava a me testar, a duvidar de minha capacidade intelectual e isso era extremamente irritante e para o azar dela a nota do teste foi bem alta.

Outro dia, em plena aula de biologia, sobre células e outras belezas, sempre com o auxílio de meus irmãos, após uma prova, o professor insinuou que minha nota havia sido alta porque meu irmão, supostamente, teria me ajudado. Eis as palavras do professor:

_ A maior nota da turma... Com duas cabeças para pensar fica fácil, não é?!

Meus amigos leitores foi necessário acalmar meu irmão, pois ele olhou para o professor de uma forma que se ele – professor – falasse algo mais uma agressão poderia ocorrer.

Pode parecer brutal ou aparentar que meus irmãos são inconsequentes, mas, naquele dia e situação, eles não conseguiam mais aceitar tantas dúvidas quanto ao meu intelecto; já estavam cansados de verem que a cada ano e matéria era necessário provar para outros o que eles, meus irmãos, já tinham consciência.

Mas teve o troco.

O professor passou um trabalho sobre efeito estufa e, com a ajuda de meus irmãos, fizemos cartazes para que a apresentação fosse mais interativa.

Sala cheia, quadro negro (que na verdade é verde), professor sentado ao centro, como dono do saber e começa minha apresentação.

Falei com propriedade sobre o assunto que havia estudado e os exemplos nos cartazes ajudaram a ilustrar para melhor assimilação do que estava sendo explicado. No fim, propositalmente, abri espaço para perguntas e, evidentemente, o professor levantou questões que eu respondia e ainda fundamentava com o uso dos cartazes olhando diretamente nos olhos dele que, por vezes, somente tinha o chão como ponto de fuga.

A turma inteira gostou do trabalho e aquele professor deve ter se lembrado de suas palavras infelizes ao me ver sozinho apresentar toda uma aula.

Até quando precisaremos provar se sabemos ou não, se podemos ou não fazer algo?

Quantos “se”!

Por favor, podemos dialogar?

Peço para que não pensem que estou generalizando, pois escolhi aqui descrever duas situações específicas vividas.

Em meus anos escolares, antes e depois do acidente, a oportunidade de aprender com ótimos mestres me faz hoje continuar estudando e também me faz agradecer a eles. Heróis mal remunerados e sem o reconhecimento devido que, com seus ensinamentos, passam a fazer parte de nossas vidas.

Também não tenho a pretensão de passar uma imagem de perfeito, até porque minha deficiência física é nada mais do que mais uma entre muitas deficiências que tenho.

Por que é mais fácil descrever defeitos do que enaltecer nossas qualidades?

Fica a questão.

Até a próxima!

Angelo Márcio.

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