quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Promessas feitas e cumpridas (Parte 1)

cron_def_lago_agua_linpa Oito anos depois de ter saído do hospital e lançado propostas de luta junto com a psicóloga que me acompanhou no dia de saída. Dia em que, sinceramente, tive receio do que me aguardava, já que era um misto de alegria, temor e estranheza que, junto com a falta de ar, quase me fez retornar ao hospital. Como diria Morgan Freeman, em seu personagem, Red, no filme “Um sonho de liberdade, eu me sentia institucionalizado. Filme este que aconselho assistir com calma.

No entanto, busco neste texto e nos próximos, quero focar nos propósitos ou desafios enumerados no post “Passos para enfrentar o desconhecido”.

Vamos lá!

Alguns anos passados do acidente tive a possibilidade de cumprir as seguintes promessas praticamente em uma semana, ou melhor, duas:

- Voltar à cidade de Jussara e visitar o local do acidente.
- Andar pela cidade para enfrentar os olhares.
- Visitar uma pessoa com deficiência na mesma cidade.
- Ir a um baile, festa, algo assim.

Hoje começo pelo local do acidente assim:

No fim da tarde de um domingo minha mãe, um primo e eu, saímos de casa com um roteiro, para muitos, considerado como louco e ainda surgiram pessoas com vontade de me demover de tal idéia, mas o caminho, a rota, já haviam sido traçados e voltar atrás seria mais uma perda e eu estava ávido por aquela vitória.

Continuamos nosso caminho refazendo-o exatamente como no dia do mergulho ou salto para melhor entendimento. As diferenças logo começaram a se mostrar, pois, se havia passado por ali de bicicleta com liberdade incondicional, agora passava em uma cadeira de rodas, liberto nas decisões e condicionado a ter alguém a auxiliar no cumprimento das decisões, ou seja, também preso – sem esquecer que as rodas também semelhanças.

Ao olhar aquela avenida curva com casas de um lado e cercas de arame de outro, buscava sempre o horizonte e ela parecia não ter fim. Enfrentá-la na atual condição de tetraplégico não mais a situava como um caminho para a diversão e sim para uma batalha pela qual esperara, treinara por anos e agora enfrentava sozinho. Mesmo tendo minha mãe e meu primo, era a minha batalha.

Mais adiante passamos sobre a ponte do Riacho Água Limpa.

Era desta de cima desta ponte que tínhamos o hábito de pular, com um frio imenso na barriga e uma vontade de que chegasse logo a água para nadarmos e sorrirmos como quem vence desafios, pois o tempo entre o salto e a água parecia sem fim. Foi isso que pensei sobre a ponte.

Fizemos uma pausa em uma fábrica de laticínios, que em nada havia mudado, para beber um pouco de água bem gelada e creio nem precisar dizer que isso também era feito antes e enquanto nos refrescávamos, um homem se aproximou, com trajes brancos, perguntando a meu primo quem eu era e, rapidamente, ele, o homem, se lembrou que alguém quase havia morrido no riacho há alguns anos e este alguém estava diante dele. Alguém que se manteve no “quase morte”, sem se atentar muito ao que ele falava, pois o foco era o local do acidente.

Por ser assim continuamos a saga e chegamos.

Finalmente chegamos ao local que já descrevi como belo, fatídico, divertido, ponto de mudança e início de nova vida.

O que via agora, em nada tinha semelhança com o local de antes.

A olaria não existia mais, o barranco estava aplainado e a mata destruída por lixo. Mesmo assim pude ver como se o dia se repetisse. Não como um “déjà vu”. Era real! Então a destruição dos desmandos das mãos do homem deu lugar ao belo e vi, claramente, a água em correnteza mansa e seus reflexos de luz; na outra margem a mata e os sons, melodias dos pássaros; crianças a pularem dentro d’água, sorrindo e gritando, somente por gritar, com a liberdade daqueles que podem parar o tempo e trazer para um breve momento a sensação de eternidade e não seria errado dizer que se tornou eterno; também visualizei a palmeira onde depositei a bicicleta, a camisa, meus chinelos e vi meus pés.

Sim! Eram meus pés! Com movimentos nos dedos e a sensibilidade que permitia saber que sob eles havia areia, já que hoje, saindo da realidade vivida e passando para a frieza da atualidade, há uma percepção de vazio. Se é que isso seja possível.

Confesso que queria ter chorado ou dado berros de revolta, mas, estranhamente para mim e muitos outros, isso não ocorreu. O que fiz foi uma oração com minha mãe e meu primo. Nada a mais que isso.

Até os dias atuais não consigo descrever, fielmente, o que senti naquele dia e lugar que de estranho pelas mãos humanas tornou-se acolhedor.

Um lugar que remodelei, transfigurei de “quase morte” para vida certa.

Lugar de onde tirei beleza para ilustrar este texto com bela fotografia e ir além, escrever este breve poema por hora sem título:

LIMITES…
Um caminhar calmo e irreverente.
Um agir por não fazer; 
Um querer por não poder; 
Um local que marca.
INÍCIO...

Vida de tudo que importa,
Comporta,
Corta e por sí aflora. 

Aqui renasci. 
Aqui nem moro.

(Angelo M.)

Até a próxima,

Angelo Marcio.

4 comentários:

Eduardo Jorge disse...

Angelo,sabes explicar porque sentiste necessidade de ir ao local do acidente?

Queres voltar lá mais vezes?

Eu acho que nunca teria esse desejo. Não por nada em empecial.
Até porque meu acidente foi de carro e passo no local (estrada) muitas vezes sem nunca sentir alteração nenhuma.

Nunca me fez diferença nenhuma. Eu próprio fiquei confuso com esta minha atitude.

Fica bem

Angelo Márcio disse...

Olá, Eduardo!

Eu não sei exolicar exatamente o porquê de retornar ao local do acidente, sei que para alguns foi algo meio mórbido.
Vejo mais como um teste de força, pois havia muita gente que dizia não ter coragem ou força de voltar aos seus locais de acidente.
De tanto ouvir isso, resolvi voltar ao meu local, pois eu tinha apenas 15 anos na época e sim, meu amigo, quero voltar lá outro dia.
Talvez para explicar melhor, só com uma palestra de umas 2 horas. rsrs
Não fique confuso, Eduardo, pois a diversidade de reações reflete as diferenças do homem - do ser humano - assim como tem pessoas que ficam desesperadas e outras não, etc.etc

Abraços
Angelo Márcio

Deficiente Ciente disse...

Parabéns por sua coragem, meu amigo! Não deve ter sido nada fácil para você.

Adorei o poema! Além de um exelente escritor também é um poeta!

Abraços!
Vera

Angelo Márcio disse...

Vera,

Não foi fácil mesmo, no entato, foi muito grandioso em aprendizado.
Se a vida é batalha, ou melhor, se a transformamos em batalha com nosso corre-corre, sem dar a devida atenção ao que nos importa individualmente... vamos pra batalha!

Um bom final de semana, Vera, e obrigado sempre.

Abraços,

Angelo.

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